Esse post é uma continação de Pelegos Corruptos, Militares Golpistas.
Tancredo e Sarney
Em 1985, por eleição indireta foi eleito presidente Tancredo Neves, um político mineiro moderado, hoje conhecido como avô do atual
governador de Minas, Aécio Neves. Assim como uma renúncia lunática colocara um presidente fraco no poder em 1962 – João Goulart – outro acidente fatal levou Tancredo e assumiu o seu vice-presidente, José Sarney que nos primeiros anos de seu governo foi tutelado por Ulysses Guimarães.
Liderando o PMDB, Ulysses se julgava no direito de ser presidente, mas fora preterido por Tancredo. Por sua vez ,José Sarney fora presidente da Arena, partido de apoio aos militares até nas vésperas das eleições indiretas. Para transmitir tranqüilidade aos militares no período de transição Tancredo o aceitara como vice. Era como se o tempo tivesse voltado 20 anos atrás, quando os líderes políticos eram chamados de raposas.
Deste triângulo Tancredo talvez fosse não apenas o mais moderado, mas também o mais sagaz. Mas não o suficiente para driblar a morte. Sarney que assumira o controle do Maranhão durante o período dos governos militares como homem de confiança do regime, aos poucos, com o poder da caneta, foi diluindo a influência de Ulysses. Sarney abriu as portas da corrupção administrativa e com seus pacotes econômicos fracassados liberou o dragão inflacionário. Saiu do governo desacreditado como governante em conseqüência da inflação e da corrupção.
Fernando Collor e Itamar Franco
Collor, o breve, assumiu o governo com a tríplice bandeira de combate à corrupção, à inflação e aos marajás, funcionários de elevados salários. Renunciou e teve seus direitos políticos cassados sob acusação de corrupção. A inflação descontrolada e um projeto de privatização incompleto foi a herança que deixou para o sucessor.
Itamar Franco foi um presidente emburrado. Tancredo Neves dizia que ele guardava seu rancor na geladeira para conservá-lo por mais tempo. Depois dos planos fracassados de Sarney e de Collor e da corrupção que envolvia o executivo e o legislativo (escândalos dos anões do orçamento) tinha pouco espaço para aventuras. Tendo Collor privatizado a Usiminas, menina dos olhos dos mineiros, Itamar decidiu que a CSN dos cariocas e a Cosipa dos paulistas também deveriam ser privatizadas. O grande sucesso de seu governo foi a elaboração do Plano Real, o último pacote econômico – que foi o último por ter dado certo. Só por este trabalho Itamar merece reconhecimento nacional.
Fernando Henrique Cardoso
O Plano Real controlou a inflação e elegeu seu sucessor Fernando Henrique Cardoso. Mais por falta de alternativas que por filosofia política, Cardoso, um culto professor universitário, abraçou o programa de privatização e tomou medidas firmes para combater a inflação. A mosca azul de Machado de Assis que picara os militares também o picou e ele apoiou a reforma da constituição para obter um segundo mandato, atitude pouco democrática que se tornou hábito dos governos sul americanos. Seu segundo mandato não repetiu o brilho do primeiro, acusações não provadas de corrupção tornaram-se manchetes. Teve que enfrentar crises econômicas externas e crises internas em conseqüência da fragilidade do sistema financeiro não estar preparado para operar em economia de baixa inflação. Lançou o Proer e deixou como herança baixa inflação, sistema financeiro recuperado e dívida externa sob controle. Sua popularidade em decadência quando deixou o poder continuou em declínio.
Embora o povo sempre goste dos políticos demagogos e distribuidores de benefícios para que seus sucessores paguem a conta – o que FHC não fez – político sem popularidade é político morto. Por isso, os políticos brasileiros em sua maioria não se envergonham da corrupção, se entregam a ela, arrecadam recursos ilegais, indicam apadrinhados para cargos públicos como o atual presidente do Senado, pagam horas extras para funcionários em férias, distribuem cestas básicas, fazem de tudo para comprar esta tal de popularidade.
Lula
E finalmente em 2002, quase 20 anos depois da saída dos militares do poder, os brasileiros fizeram como os chilenos que elegeram Alende ou como os franceses que elegeram François Mitterrand, isto é, políticos que perderam varias eleições em seus países antes de serem eleitos. Elegeram Luis Inácio Lula da Silva que haviam sido derrotado três vezes. A decepção foi maior para aqueles que votaram nele que a surpresa para os que não votaram e continuam não votando.
Quem o elegeu aguardava um governo que estatizasse as empresas privatizadas. Esperavam que colocasse os salários na estratosfera, que não pagasse a dívida externa e baixasse os juros. Que combatesse a corrupção, que eliminasse o nepotismo e que fizesse a reforma agrária. Ele não fez nada disso.
Manteve a mesma política econômica de seu antecessor chamando-a de herança maldita. Não concedeu aumentos salariais descontrolados e os juros permaneceram elevadíssimos. Para desespero dos esquerdistas, pagou a dívida externa. No primeiro mandato encheu o governo de amigos que haviam perdido eleições. No segundo mandato evitou repetir o erro. Mas sobre a corrupção… não vê, não houve e nem fala. Apenas a deixa livre, solta e airosa.
Aliou-se a antigos adversários acusados de corrupção em troca de apoio político. Assistiu a queda das lideranças de seu partido afastada por corrupção, seu braço direito foi cassado pelo congresso, processos estão abertos acusando seus companheiros de formação de quadrilha e nada o preocupa. Com a popularidade nas nuvens ele paira acima do bem, mas vive dentro do mal.
Desde 1985, nem mesmo no Governo Sarney, houve tantos atos de corrupção na mídia seja do executivo, seja do legislativo e até de governos da oposição. Durante o segundo governo de Vargas, o jornalista Carlos Lacerda cunhou uma expressão para definir este estado de coisas: Mar de Lama. Mas o que acontece hoje é muito pior. Estamos vivendo em uma cloaca e dentro dela corre o sangue da democracia.
Democracia, Governos Civis e os Militares
Toda vez que um político é preso com dólares na cueca, que é filmado colocando dinheiro na meia ou em bolsas femininas, todas as vezes que um vídeo mostra um governador deitado em sofá estendendo a mão para receber o envelope do suborno, todas as vezes que um presidente declara que a imagem não prova nada, a democracia recebe uma punhalada.
O Brasil quer ser uma potência emergente, mas nunca será. A América é uma potencia e lá existe corrupção. Mas quem for pego vai para a prisão e perde o fruto do roubo. O Japão é uma potência, mas o corrupto é punido e muitas vezes se mata de vergonha. A China pretende ser potência, mas lá os corruptos são fuzilados. Não existe possibilidade de um país se tornar potência enquanto nele o crime político compensar.
E os militares? Os militares do presente permanecem condenados pelos erros do passado. Erros que não cometeram. Tem soldos congelados. Faltam verbas essenciais para alimentação dos soldados. Por economia, os convocados são dispensados. Equipamentos necessários para a segurança nacional lhes são negados. Quando fazem pareceres técnicos sobre qualidades de aviões de combate são obrigados a refazê-los em silêncio para atender compromissos e negociações desconhecidas. Enquanto os políticos de esquerda tripudiam sobre o passado, os militares estão cumprindo missões de paz no estrangeiro. Lá no Haiti o terremoto matou 18 militares. Os corpos dos heróis são expostos em salões e a simpatia popular começa a fluir, enquanto o ex-exilado José Dirceu, atualmente cassado, desenvolve atividades de consultoria e missões sorrateiras.
Não desejamos ver os militares humilhados, mas também não queremos vê-los novamente no poder. Os políticos de bom senso que devem existir neste pais devem agir enquanto há tempo. Não é possível suportar tanta corrupção. Os poderes legislativo, executivo e até mesmo o judiciário estão permanentemente falhando no cumprimento de suas obrigações básicas. Não há democracia que resista por muito tempo. Se a corrupção não for combatida o passado pode voltar e…. existe gente que já o prefere, mas não o autor deste artigo.