A fam?lia selvagem.( Léry, 1580, p.107).

Acho que eu já mencionei, em algum lugar do passado nesse blog, a minha “paixão” pela literatura de viagem do século XVI (16). Mas, o que eu não contei, e agora vou contar, é a minha predileção por um relato: Histoire d’un voyage fait en la Terre du Brésil, escrito pelo protestante francês Jean de Léry e publicado em 1578. Em português, a obra recebeu o seguinte título: Viagem à Terra do Brasil. Como minha defesa está chegando, não consigo pensar em outra coisa…

Bah!…sou muito suspeita para falar desse livro, lido e relido, em português, espanhol, inglês e francês, por mim há uns quatro anos…Mas, acredite, a narrativa é impressionante. Para começar o “contexto” da publicação: conflito entre católicos e protestantes na França e o fracasso das tentativas de colonização francesa no Rio de Janeiro e na Flórida, num momento em que a América, ou o Novo Mundo, era para os europeus, um “lugar onde tudo poderia ser possível”, até mesmo o convívio harmonioso, a paz e o amor, entre católicos e reformados.

Pisando em ovos, eu poderia até arriscar que Histoire d’un voyage… seria uma espécie de “sci-fi” do século XVI, (desculpem-me os fanáticos adoradores do genêro e, também, os historiadores da área!).

O autor, Jean de Léry, esteve no Brasil na ocasião da França Antártica, a tentativa de colonização protestante no Rio de Janeiro (1555-1560), liderada por Nicolas Durand de Villegagnon. Ao voltar para a França, depois de muita tragédia, eu já explico isso, Léry escreveu uma prévia de seu relato após muita insistência dos amigos. Mas, em 1563, o maldito manuscrito foi perdido, achado anos mais tarde e, finalmente, publicado em 1578, quase vinte anos após os acontecimentos.

O sucesso maior da narrativa se deu em razão do debate teológico entre católicos e protestantes em pleno solo americano. Discussões sobre a “transubstanciação”, a transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo, deu o que discutir. De um lado, os católicos acreditando na transformação de forma concreta, enquanto os protestantes defendiam a questão como uma espécie de metáfora. Sobre isso, de forma bem irônica, o francês escreveu que os católicos, à maneira dos selvagens canibais, queriam comer o corpo de Cristo…aff…imagina como isso não deu confusão!

O resultado, depois de muitos debates entre Villegagnon e os pastores Pierre Richer e Guillaume Chartier, chegou ao ponto da expulsão dos protestantes da França Antártica. Como tragédia pouca é bobagem, na volta à França, a embarcação, conseguida à preço de banana, rs, fazia água para todos os lados. Por medo, ou por necessidade, alguns protestantes desistiram da viagem e voltaram à colônia, sendo presos e condenados à morte (o episódio ficou conhecido como um martírio, pois mesmo diante da ameaça de execução os franceses não abjuraram sua fé).

Como eu disse, tragédia pouco é besteira. Enquanto isso na embracação: o pouco da alimentação que restava foi perdida pela inundação e a nau ficou um bom tempo à deriva antes de chegar à Europa. Para dar uma idéia da situação olha o que o próprio Léry escreveu:

“Esse erro fez com que em fins de abril já estivéssemos inteiramente desfalcados de todos os víveres, já varríamos o paiol, cubículo caiado e gessado onde se guarda a bolacha nos navios, mas encontrávamos mais vermes e excrementos de rato do que migalhas de pão. Quando havia repartíamos às colheradas esse farelo e com ele fazíamos uma papa preta e amarga como fuligem”.

Até mesmo os pequenos macacos e os papagaios que seriam levados como presente para o rei francês, para membros da corte e, também, para serem vendidos, serviram de refeição durante o trajeto de volta à França. No mês seguinte, em maio, as possibilidades de alimentos já eram nulas e as tormentas só aumentavam, levando os franceses a tomarem uma decisão desesperada: ferrar todas as velas e amarrar o leme, ficando à mercê das águas. Os casos de “hidrofobia causada pela fome” tornaram-se comuns, nessa altura da viagem relata Léry, já lançavam uns aos outros “olhares denunciadores” da “disposição antropofágica”, possibilidade que só foi descartada pelo mestre do navio, porque avistaram as terras da Bretanha, no final daquele mês.

Ufa! É isso…post grande, né! 😛

Frontisp?cio da primeira edição de Histoire d'un voyage...1578.

Mas, quem se interessou pelo livro:

LÉRY, Jean de. Histoire d’un Voyage faict en la terre du Brésil. La Rochelle: Antoine Chuppin, 1578. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k52545t.

________. Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. USP, 1980. (Tradução meia-boca, mas o livro tá baratinho!)

________. Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil, 1557. [s. l.] Presses du Languedoc/Max Chaleil Editeur, 1992. (Essa edição eu recommendo, vem com anotações do historiador francês Frank Lestringant.)

________. Histoire des Choses Memorables Advenues em la Terre du Brésil, partie de L’Amérique Australe, sous le Gouvernement de N. de Villegaignon depuis l’an 1555 jusques a l’an 1558. In: Ternaux-Compans. Nouvelles annales des voyages, de la géographie et de l’histoire ou Recueil des relations originales inédites, Paris, Tomo XL, p. 188-208, 1854. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k69909z.item.

Ainda, sobre o martírio protestante na França Antártica:

RICHER, P. La refutation des folles resveries, exécrables, blasphèmes, erreus et mensonges de Nicolas Durand, qui se nomme Villegagnon, 1561.In: LESTRINGANT, Frank. L’Experience huguenote au nouveau monde (XVIe siècle). Genéve: Librarie Droz S. A.,1996.

CRESPIN, Jean. A tragédia da Guanabara. A História dos primeiros mártires do cristianismo no Brasil. Tradução Domingos Ribeiro. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

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3 Comentários

  1. César disse:

    Carol, segunda estarei lá.
    ótimo post e desde já desejo toda a felicidade do mundo na sua defesa. Não esqueça que quem defende banca uma caixa de orginnal.
    Abraços carinhosos e sinceros do seu amigo/pai “faike”

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