Quem acompanha o NewsErrado sabe que iniciamos uma série de posts discutindo a pirataria. Procuraremos sempre linkar as matérias anteriores de forma que ninguém perca um post, embora eles são independentes entre si e podem ser lidos em qualquer ordem.

Nesta primeira abordagem do assunto gostaria de falar sobre um argumento que sempre é colocado pelos que atacam a pirataria: ela causaria desemprego.

A idéia é que com a pirataria as pessoas comprariam menos o produto oficial ou utilizariam menos o serviço oficial. Com a receita em queda, o empresário teria que demitir funcionários para reduzir seus custos. O desemprego poderia acabar se voltando, via efeito multiplicador, contra a própria pessoa que fez uso da pirataria.

Esse pensamento não está inteiramente errado, tem até sua lógica. Mas peca em alguns pontos. Vejamos.

1) Não necessariamente a pessoa que adquire ou utiliza um produto/serviço pirata está deixando de consumir o oficial. Mais a frente vou abordar essa questão, em detalhes, mas a verdade é que o item legalizado pode estar indisponível, inexistente ou fora dos padrões de consumo. Nesse caso, o consumo do pirata não fere o consumo do oficial, uma vez que esta receita não existiria mesmo, independente da oferta alternativa.

2) Muitas pessoas recorrem a pirataria devido aos problemas econômicos que já enfrentam: sejam os consumidores que não têm condições de adquirir os produtos oficiais como desejariam, sejam os vendedores que só conseguiram trabalho vendendo estes produtos e precisam se sustentar pra viver. Claro que dificuldades econômicas não justificam crime. Mas é evidente que o desemprego e a crise são causa imediata e não conseqüência da pirataria. Uma ação mais ampla do governo, com melhorias sociais, econômicas e culturais são mais eficientes que uma mera campanha utópica “pirataria é crime”.

3) O combate à pirataria também pode agravar o desemprego. Diretamente, através do fim do trabalho como camelô, motorista e cobrador de van, lojas e fabricantes de produtos piratas. Indiretamente, através da queda da venda nos CDs e DVDs virgens, MP3 players, gravadores de DVD, aparelhos de DVD com DIVX e outros produtos legais e oficiais, mas que flertam com a pirataria. Globalmente, esse combate afetaria a venda de produtos chineses, principal fonte de produtos “genéricos”. A própria racionalidade anti-pirataria nos mostrou o que ocorre quando há queda prolongada nas vendas: Os chineses teriam que demitir funcionários, e o desemprego e recessão poderiam ameaçar a China. A crise poderia se alastrar pelo mundo economicamente globalizado e dependente, tanto das exportações como das importações chinesas. Exagero? Talvez.  Tanto quanto considero a análise que a pirataria geraria desemprego.

Conclusão: Caso exista de fato alguma relação entre pirataria e desemprego seria muito mais acertado dizer que o segundo agrava o primeiro, e não o contrário.

Postado por Tags: , , , Categorias: Economia & Política, Editorial
3173

Comentários do Facebook

Possuímos dois sistemas de comentários, você pode escolher o que mais lhe agrada. :-)


Comentários do Blog

8 Comentários

  1. Edu disse:

    concordo em genero, numero e grau
    combater a pirataria da forma como é feita, é a mesma coisa que combater o trafico com a proibicao da droga.

    Eu nao vivo da venda de cds piratas, nem remedios, nem nada, mas gosto de baixar musica pela internet… assim como gosto de ouvir musica na radio, ou na mtv.

    Se alguem fizesse uma compilacao em mp3, de tal banda, ou tal genero musical e quisesse vender, penso que nao haveria violacao do direito autoral. Muito pelo contrario: haveria uma divulgacao do nome do artista, que ficaria mais famoso e atrairia mais publico para seus shows. De fato, isso já ocorre no Youtube, como ja sabemos.

    Isso significa que se eu gravar no meu “tape” uma musica que esta tocando na rádio, por exemplo, eu nao estaria pirateando a musica. O mesmo ocorre, com quem copia um cd, ou baixa na internet.

    O que deveria ocorrer, seria a isencao de impostos sobre a venda de musicas no Brasil, pois deveria haver incentivo(incentivo, porra!) pra cultura musical, tal como ocorre na literatura.

  2. ezequiel disse:

    não concordo de jeito o sr esta total e completamente errado, crime é crime e acabou a conversa, até parece que o sr é um criminoso, saiba que quem faz apologia ao crime também é um criminoso, e digno de cadeia, portanto se a LEI na sua infinita sabedoria diz que pirataria é crime, num tem conversa amigo tem que combater e ponto final não existe isso de crime pequeno ou crime grande, quem rouba um alfinete, rouba um avião é apenas questão de oportunidade, e geralmente quem faz isso é quem não respeita a lei e não tem caráter pois ao invés de montar uma empresa honesta e criar sua própria marca, sai por aí roubando, copiando, falsificando, na maior cara de pau como se vivesse numa terra de ninguém numa terra sem lei, por isso quem faz pirataria é bandido e deveria ir pra cadeia sem a menor chance, oras se uma mãe é presa por roubar um pote de manteiga pro seus filhos, o que dirá destes ladrões intelectuais que por serem burros não conseguem criar a própria maneira de sustentar partem para a bandidagem para o crime, e tenho dito.

    • Você não deve ter lido a série de postagem sobre pirataria inteira. No Post número 6 eu abordo essa questão que vc menciona, Ezequiel. Vou reproduzir aqui embaixo a parte que serve de resposta pra esse seu argumento:

      “Não se discute se pirataria é ilegal ou não. As leis devem ser cumpridas, não estão abertas ao debate, sob o risco de se cometer apologia ao crime. Entretanto, a Moral não é imposta de cima para baixo: ela vem da sociedade e não é tão rígida ou universal como a lei. A Moral permite que existam discussões sobre o que é certo ou não.

      E qual seria a base das leis? Exatamente os valores morais da sociedade. Dessa forma, considero que debater o assunto de forma racional não só não é um crime como pode trazer reformas e alterações nas leis, tornando-as mais justas e em sintonia com a sociedade a qual esse código legal deve reger e proteger.”

  3. Cristiano disse:

    Olá

    Na verdade, creio que uma coisa nao eh muito ligada a outra nao…

    As crises e o desemprego global como nos vemos nos dias atuais tem mais ligacao com a industrial de producao em si, ja que muitos produtos de consumo dificeis de piratear estao sendo afetados…

    Alguem ja viu um carro falsificado ? Dificil… e a industria automobilistica esta sofrendo com a crise.

    Sobre a ligacao entre pirataria, queda nas vendas dos originais e desemprego, concordo, pois quando a situacao aperta as pessoas apelam mais para o “generico”, porem associar que as vendas dos piratas tiram o “lucro” dos originais, discordo 100%, pois em situacoes normais de mercado, quem nao tem dinheiro para o original vai comprar o falsificado.

    Falar que 1000000 pessoas que baixaram o mp3 deixaram de dar $ a gravadora é ridiculo pois sao poucas pessoas que compram o CD.

    Um software, como o Windows ou Office, varias pessoas usam pirata, mas isso tira o lucro da MS ou faz a mesma lucrar menos ?

    []s

  4. Mark Lima disse:

    Acho que essa questão toda é muito complexa…
    Meu pai tem uma locadora de vídeo há mais de 20 anos e, de um tempo pra cá, na rua da locadora, um vendedor ambulante colocou uma banca de dvds piratas… aí já viu né: queda acentuada no número de locações… um atendente já perdeu o emprego… é uma concorrência bastante desleal (um dvd original custa 100 pilas em média…) e não são só grandes empresas que são afetadas pela pirataria, pequenas também… é claro que beneficia quem vende, dá chance de gerar receita… no caso o vendedor tá ganhando o dele, mas por outro lado alguém paga o pato… e não são só altos-executivos de terno e gravata que sofrem com isso… a impressão que se tem é que a pirataria só vai contra gravadoras, editoras, artistas, grandes marcas… não é bem assim…

    Estou colocando isso só pra ilustrar o quanto pode ser difícil ficar desse ou daquele lado… olhando, de fato, os dois lados da moeda…

    • Claro que é uma questão complexa, sem respostas fáceis. O intuito dessa série de posts não é defender simplesmente a pirataria como um ato “robinhoodiano”. Mas oferecer um contraponto aos argumentos que são colocados de forma unilateral na grande mídia. Toda história tem dois lados, raramente há um vilão e um mocinho claramente definidos. E a propaganda oficial, que se utiliza especialmente do noticiário, vilaniza a pirataria e o consumidor.

      Agora, quanto à questão da videolocadora: eu costumo alugar alguns filmes, mas realmente passei a frequentar muito menos as locadoras. Isso devido não só à comodidade e preço dos downloads, mas também ao fato de podermos ver muita coisa na TV paga, Pay-per-view e até mesmo por comprar os filmes e seriados que realmente eu gosto mais.

      Veja bem, a locadora está sofrendo com a mudança do mercado legalizado mesmo, não só com a pirataria (que também prejudica, é claro): venda direta de filmes e séries, downloads oficiais, TV, etc… não sei qual é o futuro das locadoras, mas acredito que o dia que dispusermos de meios fáceis e honestos de ter acesso aos filmes e programas que queremos, “on demand”, a última das locadoras fechará.

  5. Valeu! Vou ler agora mesmo.
    Estou escrevendo uma série sobre o tema, pois acho que devemos combater é a hipocrisia. A Lei do Mercado é mais forte, e as empresas devem jogar dentro dessas regras para vencer a pirataria, não usando o porrete, que é inútil.

  6. João Francisco Viégas disse:

    Li o texto sobre a pirataria e concordo!
    Também já escrevi sobre o tema.
    Se quiser da uma olhada!
    http://eopedefeijao.blogspot.com/2008/07/pirataria-direito-do-consumidor.html

Deixe uma resposta