Continuamos com a série de posts que analisa a questão da pirataria. Leia o primeiro post aqui.

Vamos abordar agora a ligação entre pirataria e crime organizado. Essa questão tem sido muito levantada ultimamente, e a propaganda oficial anti-pirataria acusa o consumidor de conivente, cúmplice e fomentador da violência que assola os grandes centros urbanos nacionais.

Eu acredito que os camelôs que vendem filmes e softwares piratas realmente façam parte de uma rede organizada. Dificilmente, eles seriam simples indivíduos que gravaram um cd em casa e foram pra rua vender. Até porque acredito que isso vale para qualquer produto vendido em camelô, inclusive para aqueles que atuam nas áreas legalizadas pelo governo, os chamados Shoppings Populares ou Camelódromos.

Um parentesis: se a pessoa está comprando em um shopping popular regulamentado e supostamente fiscalizado pelo governo, deveria confiar na procedência do produto. Chamar o consumidor que freqüenta esse comércio  de cúmplice do crime é no mínimo leviano.

Retomando o raciocínio, concordo que esses camelôs fazem parte de uma rede em que algumas pessoas obtém os originais, copiam em massa e distribuem nas ruas. Mas relacioná-los com o tráfico de drogas? Isso é ridículo. A pirataria rende muito menos do que a venda das drogas. Mas muito menos mesmo. Por que um traficante iria vender dvd pirata do Hulk ou cd pirata da Ivete Sangalo? Seria o mesmo que dizer que o Bill Gates, pra diversificar os seus negócios, abriu uma quitanda.

Além disso, quando pretende diversificar, o empreendedor (legal ou ilegal) mantém-se na área que tem conhecimento. Um traficante poderia roubar bancos ou seqüestrar. Partiria para ações rápidas e armadas, com resultado imediato.

Outra coisa: toda a vez que estoura um esconderijo do tráfico, a polícia encontra armas, drogas, celulares, munição… mas nunca, jamais foi divulgado que encontraram discos piratas ou material para confecção de cópias ilegais.

Vamos combater a pirataria? Certo, mas pelos prejuízos reais que ela causa, não por razões imaginárias. Esse tipo de fantasia só diminui a força da campanha legalista.

Enfim, essa análise, com algumas adaptações, serve para outros tipos de pirataria. As vans formaram uma máfia fechada e perigosa, que resolve suas questões à bala? Sim. Mas isso não difere da máfia das empresas de ônibus. E as vans legalizadas se comportam da mesma forma que as piratas. O problema nesse caso está no governo, que não fiscaliza e não pune. Está nas empresas que não atendem satisfatoriamente à população. A demanda existe, se não for suprida pelos meios regulares, será suprida de outra forma. Mas isso já é assunto para outro post.

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Comentários do Blog

6 Comentários

  1. Nova Classe Média disse:

    Essa questão é um tanto mais complexa… Quem vive de negócios sempre estará aberto a novas fontes de renda, novos ramos de negócio. Quem vive de negócios ilegais, como o tráfico de drogas, pode sim vir a se envolver em outras atividades ilícitas, como a pirataria, sem necessariamente guardar esses produtos nos depósitos de armas e drogas. Se se envolvem em máfias de van, porque não se envolveriam no lucrativo comércio de cópias ilegais? Ingenuidade pensar que não.

    Concordo que os preços abusivos impedem a distribuição justa de bens, mas penso ser esse um dilema do tipo “quem veio antes, o ovo ou a galinha?”

    Usemos como exemplo o mercado de videogames. Mais de 50% dos jogos vendidos no Brasil são piratas. Por um simples exercício de matemática podemos perceber que se não houvesse esse desvio, os produtos originais poderiam custar 50% menos, gerando empregos, impostos e renda ao país, ainda reconhecendo o lucro dos criadores do produto. E o camelô que trabalha na barraquinha talvez pudesse estar trabalhando com carteira assinada, e não às margens da sociedade.

  2. A coerção e a falsa propaganda realmente são as piores maneiras de acabar com a pirataria, que só surgiu porque as empresas tradicionais não estão atendendo ao mercado como deveriam. Se elas jogarem pelas regras econômicas e não pelas frágeis e manipuláveis leis, a pirataria diminuíria.

    Caro filosófico, concordo com você que existe uma tendência de querer apagar erros do passado: escravidão, roubo de riquezas naturais, jogo desleal e corrupção de grandes empresas… Não podemos dizer, como querem os neo-liberais, que o mundo hoje está dividido assim simplesmente porque uns foram mais competentes que outros. A História discorda completamente dessa visão simplista que querem nos impôr.

  3. filosófico disse:

    Bem,esta abordagem precisa estar presente constantemente em discussões,pois desmistifica a questão de que quem pirateia é assaltante,bandido,traficante,enfim,meliantes aos olhos da sociedade.

    Se analisarmos que a pirataria é apoderar-se de bens de outem ,veremos que isto começou desde o descobrimento do Brasil,com os saques de nossas riquezas naturais,veremos que é algo tão antigo e inquestionável ,tão sabido por todos,tão deslavadamente aceita a tantos anos e ,por incrível que pareça,tão aceita como um fato “normal”.Por outro lado,a pirataria poderia ser o nome dado à cobrança de impostos,que,sem ser piegas,é a pirataria mais aceita por TODA a população,e sustentada por TODOS,inclusive pela justiça no geral :principalmente a governamental .
    Neste caso,observe a observação de que

    “num carro por exemplo existe mais de 50% somente de impostos.”

    Analisando a positividade da “pirataria”,os artistas ,bem como sua musicalidade estão em todas as camadas sociais,graças a aquisição barata do produto,portanto,é descabida a idéia de que o artista é prejudicado com tal comercialização se o grosso da grana está nos shows.E quem são os milhares de fãs que lotam os estádios? R:na grande maioria,quem compra o produto genérico.

    Que dizer então dos fornecedores de duplicadoras de DVD?
    Que dizer das fabricantes de refrigerante genérico sabor Coca,ao Guaraná ,etc ? Estariam pirateando o produto?

    Há a necessidade de coercividade.Ou a tecnologia é assumida como um bem comum ou deve ser pensada e direcionada para poucos.É óbvio que com a última alternativa não há lucratividade,e como tudo,principalmente na globalização,enfoca a lucratividade,isto não daria certo , pois estaria na mão de poucos.Também se tornaria questionável a democracia,a liberdade de expressão;bandas,artistas,paródias,NADA poderia ter um som parecido,ou copiado,enfim,não poderiam haver inspirações de outros :um retrocesso na criatividade.

    Alguns devem se lembrar dos brinquedos Estrela…Quase um monopólio da preferência de brinquedos no país.
    E da invasão do consumismo do R$ 1,99.(que no começo tinha alguns produtos muito bons)

    O fato é :

    TODOS SABEM DA EXISTÊNCIA DO POVO , TODOS PRECISAM DO DINHEIRO DO POVO(pois dinheiro não tem nome )MAS POUCOS QUEREM SE JUNTAR A ELE.
    O mais paradoxal é o seguinte,a maioria consiste do povo,que detém uma concentração em $ ,pequena,mas , a população é grande .Então , as produtoras,querem que o POVO,assuma a responsabilidade de gastar R$ 30,00 numa “oferta” ou o preço de uma locação R$4,00 p/ + ,sendo que,o salário é mínimo.Mínimo mesmo.Principalmente quando falamos de cidades afundadas no Brasil,sem nem sequer,aterro sanitário.Mas,que estão sendo fiéis no pagamento de produtos,nestas grandes lojas de móveis,eletrodomésticos,que,descaradamente anunciam ofertas de R$ 300,00 à vista ou em 25 pagamentos de R$ 20,00…façam as contas do absurdo

    Ou seja ,como abertura dos DVD’s sugiro que tirem as imagens e propagandas que dizem que o dvd pirata é de associação ao crime e coloquem o seguinte

    “Se não tem $ ,se prive”

    Ficaria mais bonito do que a hipocrisia.

  4. André disse:

    Oi, o que vejo em relação a isso é que realmente não tem muito haver, o mais que poderia é que o cara que vende produto pirata usaria o dinheiro para comprar drogas, mas dai qualquer pessoa pode arrumar dinheiro para isso de diversas formas, portanto não convem…

    Abraços!

  5. Carol disse:

    É complicado mesmo…máfia, cartel, etc…e tem gente que acha que é uma vantagem…

  6. Chefe disse:

    É, meu velho,

    Concordo com teu raciocínio. Há máfia por tudo, desde postos de gasolina, empresas de ônibus e, até mesmo, empresas fumageiras.
    Um dia nosso Brasilzão chega lá…

    Grande abraço!! (seu amigo secreto)

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