Interesse

As pessoas – pelo menos as que visitam o NewsErrado – têm demonstrado um saudável interesse em ciências. Nossos posts sobre o acelerador de partículas LHC são verdadeiros magnetos de googlenautas e o item “ciência e tecnologia” está em 2º lugar na nossa enquete, na frente de outras 13 alternativas. Essa boa notícia nos incentivou a escrever mais posts sobre ciência.

Confusão

Novelas como Os Mutantes e desenhos como Star Wars – Guerras Clônicas abordam de forma lúdica e fantasiosa um tema que fascina e assusta desde o tempo de Frankenstein (ou talvez até mesmo anterior a isso, com a mitologia do Golem): o Homem tomando o papel divino para si e criando vida de uma maneira “não ortodoxa”.

É seguro afirmar que quando o assunto é a ciência genética, discursos inflamados de radicais religiosos, filmes de ficção científica inconseqüentes e reportagens sensacionalistas costumam confundir mais do que esclarecer o público.

Fatos

A ciência genética é bem ampla e estuda diversos temas, contudo desde o nascimento da ovelhinha Dolly, nenhum deles tem atraído tanto a atenção quanto a clonagem. E é exatamente para trazer mais luz à esse assunto fascinante que o NewsErrado resolveu entrevistar Cíntia Callegari Coêlho, bióloga formanda pela Universidade Federal de Santa Catarina e integrante do grupo de pesquisa Genética Humana Aplicada, cadastrado no CNPq. Ela gentilmente cedeu um pouco do seu tempo para responder com bastante precisão e sinceridade às perguntas que formulamos.

1- O que é um clone?

A origem da palavra clone vem do grego klon, que significa broto. Um clone é um organismo geneticamente idêntico a outro. O processo de clonagem ocorre naturalmente em muitos organismos, como bactérias e algumas plantas, por exemplo, que se reproduzem assexuadamente (sem troca de material genético entre dois indivíduos)

2- O gêmeo é um clone feito pela natureza?

Sim, o gêmeo idêntico (univitelino, aquele que se origina da divisão de um único zigoto) pode ser considerado um clone feito pela natureza, já que é geneticamente igual ao irmão.

3 – Qual interesse prático pode haver na criação de clones?

A meu ver, os interesses mais nobres na criação de clones são a clonagem terapêutica, que tem por objetivo reproduzir tecidos ou órgãos saudáveis para transplante sem correr o risco de haver rejeição no receptor e a preservação de espécies em extinção. Mas posso citar também, como conseqüência do desenvolvimento da técnica, a substituição de animais de estimação falecidos e a produção em massa de organismos com uma característica desejada, como por exemplo, a produção de um hormônio para uso terapêutico.

É importante ressaltar que a técnica ainda apresenta muitos pontos desconhecidos e, portanto, muitos problemas. O fato de se criar uma população geneticamente idêntica implica na falta de variabilidade genética, fator fundamental na evolução das espécies. O que quero deixar claro é que se a população é sensível a uma doença, uma infecção viral, por exemplo, e ocorrer uma infecção, toda a população vai morrer, por ter as mesmas características e as mesmas possibilidades de defesa, ao contrário do que aconteceria numa população natural, que possui variabilidade genética e que alguns organismos poderiam escapar da infecção, por ter genes diferentes que poderiam ser eficazes contra o ataque viral.

4 – Ao tentar criar um clone, ele poderia sofrer alguma mutação (natural ou induzida pelo homem) e sair, portanto, diferente do original?

Sim, poderia acontecer uma mutação e o clone sair diferente do original. Como já mencionado, a técnica de clonagem ainda não está completamente elucidada, levando ainda a muitos erros no processo.

5 – Caso positivo, ele ainda seria chamado de clone?

Como definimos clone como um ser geneticamente idêntico a outro, se ocorrer uma mutação no processo, teoricamente o organismo não vai ser um clone.

6- Os clones envelhecem mais rápido ou passam por uma gestação normal e envelhecem exatamente como o ser “normal”?

Apesar de passarem por uma gestação normal, os clones envelhecem mais rápido do que o normal.

Nas extremidades dos cromossomos (filamentos de DNA super compactados) existe uma região chamada telômero, que é uma seqüência de DNA que atua como um “relógio” para a célula. A cada divisão celular, o telômero se encurta um pouquinho, e quando a célula atinge um número x de divisões, o telômero está tão curto que a célula percebe que se continuar se dividindo ela vai começar a perder partes importantes do cromossomo e a célula é encaminhada para apoptose (morte celular programada). O que acontece nos clones é que uma célula adulta é utilizada para dar origem ao clone, e essa célula adulta já sofreu muitas divisões, o que implica de ela ter seu telômero já encurtado. Se o clone se origina de uma célula com telômero já encurtado, em pouco tempo suas células serão encaminhadas para apoptose, o que caracteriza o envelhecimento precoce. Resumindo, um clone é originado de uma célula adulta, então mesmo recém-nascido, suas células já possuem características adultas.

7 – Seria possível clonar apenas órgãos e usá-los como “peça de reposição”?

Esse é o objetivo de um campo de pesquisa chamado Clonagem Terapêutica, que representa esperança para a cura de muitas doenças, genéticas ou adquiridas. O procedimento é tentar fazer com que uma população de células-tronco (aquelas encontradas em embriões e que tem capacidade de se transformar em qualquer tipo celular) se diferencie em certo tecido ou órgão, que possa ser usado como “peça de reposição”. A dificuldade está em como induzir as células-tronco a formar um determinado tecido e não outro.

8 – Já existem debates éticos, morais e religiosos, abordando temas como os direitos dos clones, por exemplo?

Existem discussões, MUITAS discussões éticas, religiosas e até mesmo entre os cientistas. O ideal é cada pessoa entender como é o processo de clonagem, como funciona e o que é empregado. Enfim, desmistificar o assunto, e então cada um pode formar sua própria opinião a respeito.

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Comentários do Blog

7 Comentários

  1. […] na UFPR – em conversa anterior com o NewsErrado, ela esclareceu diversas questões sobre clonagem, vale a pena […]

  2. […] foi discutido aqui no blog sobre os telêmeros no post Clonagem – entendendo o que é um clone. Vamos […]

  3. Gladis Franck disse:

    A questão de guardar células tronco para um possível uso terapêutico esbarra no custo do processo. A um amigo solicitaram R$ 25.000,00 mais uma anuidade de R$ 2000,00 por ano. Com estes valores ele poderá investir em uma boa educação para sua filha desde a pré-escola. Acho que essa alternativa propiciará uma vida melhor.
    A clonagem terapêutica também envolve altos custos. No contexto atual não vejo possibilidades de baratear e torná-la saúde pública.
    Enquanto isso o saneamento básico e a educação que atenderiam uma parcela grande da população não recebem as verbas que merecem.
    Acho que um grande mal a ser combatido no Brasil é a corrupção que desvia 60% das verbas públicas. Com esse dinheiro seria possível sanar alguns males da saúde e educação e sobraria uma verba para os estudos de ponta em medicina e genética.

  4. Impressionante e majestosa matéria, parabéns ao Tonho e à Cíntia.

    Queria acrescentar uma questão, já misturando tema polêmico com tema mais polêmico. As células-tronco adultas também tem a questão dos telômeros? Creio que sim. O ideal então seria, ao nascer, guardar uma amostra genética do indivíduo para posterior uso terapêutico.

    Seria interessante salientar que a clonagem terapêutica de órgãos não implica em clonar um ser vivo completo e extrair as “peças” deste ser para repor no “original”, esta é uma visão comum no público em geral e reforçada por discursos religiosos inconsequêntes e filmes idem.

    • Cíntia disse:

      As duas questões que o Kosh levantou são bem interessantes.

      Com relação à primeira, já tem gente fazendo isso de guardar células tronco do cordão umbilical pra “garantir”, caso precise no futuro. É claro que isso não garante nada, mas é uma idéia.

      Talvez não tenha ficado claro na questão 3, pela resposta ser suscinta, mas a clonagem terapêutica cria apenas o tecido alvo, e não o organismo inteiro.

      😉

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