Há pouco tempo, eu publiquei aqui um belo texto de Afrânio Barbosa sobre a questão Palestina x Israel. Eu recebi um outro texto dele sobre taxa de juros, política econômica e dogmas. O texto foi escrito antes da última reunião do COPOM em que os juros SELIC foram reduzidos em 1,0 ponto, ficando em 12,75% ao ano. Essa baixa, a primeira desde 2007, não altera em nada a atualidade do texto. Pelo contrário, com uma redução tão pequena, só o torna mais relevante.

GREENSPAN e MEIRELES

Duas teimosias onerosas

Nos dias imediatamente seguintes a 11 de setembro de 2001, em seu décimo quarto ano de charmain do Federal Reserve Board, Alan Greenspan participou de um esforço coletivo muito discreto para garantir que os Estados Unidos não sofressem um colapso econômico que arrastaria o resto do mundo para o desastre.

É com este parágrafo, em que só faltou chama-lo de Super Homem da economia mundial, que se inicia a apresentação do livro de Alan Greenspan – A Era da Turbulência. Quando em 2006, depois de quase vinte anos (1987-2006), Greenspan passou a presidência do Federal Reserve para o atual presidente Ben Bernarke esta era sua imagem mundial. O capitalismo tinha uma trindade divina: Adam Smith, Keynes e Greenspan.

smithkeynesgreenspan

A ciência econômica aplicada por Greenspan para dirigir a maior economia do mundo teve três pilares. O primeiro foi a administração das taxas de juros por um período bastante logo a patamares muito baixos para evitar recessão, o segundo foi recursos abundantes com longos prazos de financiamentos e o terceiro e mais frágil pilar foi uma fanática crença na liberdade do mercado financeiro e em sua capacidade de se auto regulamentar.

O especulador financista Soros foi o primeiro a acusar o Banco Central Americano na gestão Greenspan de permitir a criação de produtos que não conhecia nem tinha capacidade para controlar. O próprio Greenspan já se declarou assustado com a falta de princípios e a audácia daqueles que em sua opinião deveriam proceder como monges no prostíbulo da ganância.

O ano de 2008 foi cruel para aqueles que acreditam cegamente nos conceitos de Greenspan cuja imagem já não é a mesma. Não é agora exagero reescrever o primeiro parágrafo da contracapa do livro de Greenspan para retratar corretamente o que esta ocorrendo.

Durante o ano de 2008 a economia americana sofreu um colapso que começou a arrastar para o desastre as economias do resto do mundo, tanto dos paises capitalistas como dos paises socialistas e a causa deste catástrofe foi a longa gestão do Sr. Alan Greenspan frente a Federal Reserve que, permitindo financiamentos de longo prazo, juros baixos e sem nenhuma fiscalização, transformou o sólido sistema financeiro americano em cassino de derivativos tóxicos elevando os preços de ativos e comodities (casas, petróleo,minério de ferro, etc.) a valores totalmente fora da realidade. O ano de 2008 foi a manhã que sucedeu a longa noite do bacanal financeiro mundial.

Nos também temos o nosso Greenspan. É o Sr. Henrique Meirelles que ocupa no Brasil, há 6 anos, a mesma função que Greenspan ocupou nos Estados Unidos. Seis anos na presidência do Banco Central no Brasil é uma eternidade. Não é uma critica, apenas uma constatação.

meirelles

Meirelles também tem seus três pilares de sustentação. O primeiro e mais potente são os juros elevados para combater a inflação, o segundo é o credito restrito e o terceiro e mais fraco pilar um Presidente da Republica pobre em conhecimentos econômicos, riquíssimo em esperteza política, que não quer se envolver como faz o vice presidente, pois se algo der errado culpará em sua linguagem presidencial os picaretas econômicos.

Em principio as medidas econômicas não estão erradas. Manter juros elevados para conter a inflação é uma das medidas clássicas recomendadas mesmo freando o crescimento econômico através da contenção da demanda.

Acontece que os juros elevados não impediram a econômica brasileira de crescer nos dois últimos anos. Portanto a inflação no Brasil se esteve dentro da meta do Banco Central não foi devido aos juros elevados. O pais pagou caro pela política do Sr. Meirelles desnecessariamente.

A partir de outubro a economia brasileira parou de crescer. Não importa se foi devido a causas externas ou internas ou devido a ambas. O resultado estamos vendo e lendo diariamente nos jornais. Empresas parando investimentos, demissões principalmente nos setores automobilístico e construção civil, motores do crescimento econômico, consumidores retraídos e projeções de crescimento bem abaixo dos desejos do Governo e de todos nós.

E o que fez o Banco Central para evitar a recessão brasileira. Liberou recursos do compulsório e mantém as taxas de juros elevadas pedindo aos bancos que emprestem mais dinheiro ao publico. Pisou no freio e no acelerador ao mesmo tempo.

É claro que o Sr. Meirelles está sendo tão ingênuo com os bancos quanto foi Mr. Greenspan em confiar na auto regulamentação do mercado. Dar mais dinheiro aos bancos, mantendo os juros elevados e esperar que emprestem, se não for ingenuidade é incompetência. Claro que os bancos pegaram os recursos e aplicaram nos rentáveis títulos do governo. Se fizerem o contrario serão incompetentes. E, se existe no Brasil um setor eficiente este setor é o financeiro. Tal como a sabedoria econômica de Greenspan custa caro ao mundo, nós temos que pagar caro pelos conhecimentos financeiros do Sr. Meirelles.

Assim como na democracia quando um político fica muito tempo no poder ela será substituida pela ditadura, na economia quando determinado técnico após fazer coisas acertadas permanece muito tempo no comando adquire confiança em sua infalibilidade e seus acertos são substituídos por erros pueris. A economia muda permanentemente e o técnico continua com os mesmos remédios.

Isto ocorreu no Brasil durante a gestão do Sr. Fernando Henrique, quando o Sr. Gustavo Franco, na presidência do Banco Central insistiu em manter por tempo prolongado o Sistema Cambial de Bandas. E se continuar como está, quando nossas reservas voltarem a patamar inferior a 100 bilhões de dólares, o que irá corroer a credibilidade do Sr. Meirelles não será este artigo, mas o câmbio.

Afrânio Barbosa de Souza

Advogado, Administrador,
Conselheiro e Diretor de Empresas.

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Comentários do Blog

1 Comentário

  1. […]  Na semana passada, o Copom reduziu a taxa para 8,75% e não fico nem um pouco satisfeito em ver a previsão acontecer. Demorou muito e a nação pagou juros desnecessários pela lenta mobilidade da autoridade monetária. “Ah, mas o Banco Central precisa ser conservador”. Não, não precisa ser nem conservador, nem audacioso, precisa ser competente. O Dr. Meirelles está condenado a ser o Alan Greenspan de amanhã (vide post anterior Greenspan e Meirelles). […]

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