Esse último domingo foi de muito sofrimento para um homem. Que não vestia vermelho, aliás. Nem o amarelo dos homens de preto da arbitragem. Faltavam alguns minutos para as 10h da manhã e era preciso tomar uma decisão: deveria ir ao grenal, mesmo sabendo de todos os problemas na entrada e na saída? Pagar 50 reais por uma cadeira e submeter-se à toda a insanidade dos aparatos de segurança antes de entrar? Os olhares desconfiados? As ameaças veladas?

Decidiu: ora bolas, era um baita jogo. Vestiu uma blusa preta e calça jeans e foi ao Olímpico. Pegou um T5, arrebatado de gremistas, no horário mais cedo. Foi de óculos escuros. O objetivo era ser discreto, não queria passar por nenhum constrangimento. Como sofre, o homem que gosta de futebol.

Sofre porque não há espaço para ele, principalmente aqui no Rio Grande do Sul. Ainda mais com essa história de associar todo mundo. Quem importa é o torcedor que vai lá pq gosta do clube, se veste todo de azul e vermelho, canta os 90 minutos. Tu tem que ter uma carteira dizendo que é colorado ou gremista para ir no estádio. Loucura. Por via das dúvidas, comprou as duas – ainda bem que está empregado. Para ver a final da Copa do Brasil, encarou uma fila absurda, cercado de gente que julgava ter direito divino a ver o jogo. Atrás dele, um rapaz tentava convencer o seu coração.

– “Tu tinha a camiseta reserva do Inter campeão de 1992?”
– “Não.”
– “Pois é, eu tinha. Número 9, do Gérson. Toda autografada, sabia? Eu vim aqui naquele jogo. Estava demais. E a camiseta do time campeão gaúcho de 94, tu tinha?”
– “Também não.”
– “Pois é, eu vim em quase todos os 58 jogos. Sou muito colorado, sabia? Pedia dinheiro para ver jogo na Coréia. É um absurdo isso que fazem com a gente. Deixar gente que não é assim, tão colorado, ir no estádio”

Um saco. Ele não é colorado. Só gosta de futebol. Só queria ver uma tremenda final entre dois timaços. Iria de camiseta vermelha, só para não encherem o saco, mas se Ronaldo fizesse um gol, sentiria uma enorme vontade de aplaudir. Não poderia, é claro.

Nesse grenal, o homem que gosta de futebol tinha decidido ir nas cadeiras. Grenal, só na cadeira, longe do tumulto, da polícia, etc. Como vai muito a jogos, já segue um padrão de comportamento. Aplaude efusivamente os carrinhos. Vibra com os chutes do time da casa. Cala-se quando o time adversário ataca. Quando a jogada é muito linda, como o gol do Nilmar, no máximo grita um “FDP”, para depois emendar silenciosamente, só para o seu coração, um “que golaço”. Ele dificilmente aprova atitudes intempestivas, como a loucura de D’Alessandro. Foi embora do estádio quando aquilo aconteceu, porque se sentiu obrigado a urrar junto com todos. Não era do seu feitio. Ele gostava de futebol, não de Wrestlemania.

Foram tantos grenais que ele se acostumou com tudo. Para evitar confusão, desistiu para sempre de ir com o carro; sempre chegava duas ou três horas antes. Para evitar os cachorros-quentes das terríveis copas, fazia um lanche reforçado logo ao chegar e arrematava com amendoins. Gostava de beber cerveja dentro do campo, mas a cerveja virou droga ilícita e altamente perigosa para todos. Para evitar os corneteiros que às vezes paravam ao lado dele para descontar sua raiva em algum jogador – o último perguntou por 18 vezes se ele não achava que “deveriam tirar o Tcheco” – rádio em alto volume, nem que seja só para ouvir música.

De uma coisa, porém, o homem que gostava de futebol não conseguiu se livrar. Das cobranças da esposa. Uma esposa consegue entender a paixão do seu marido pelo seu time. Afinal, o time chegou antes dela. Dificilmente, porém, consegue entender a paixão por futebol.

“Preciso comprar ingresso para Inter X Corinthians. Vou chegar na fila às 5h da manhã”
“Mas tu nem é colorado!”

Não foi diferente no grenal. Tinha feijoada na casa do sogro meio-dia. O sogro tem pay-per-view. Cenário perfeito para prendê-lo em casa, pensou a sua Nara Leão com açúcar e afeto. Qual o quê. Emendou um sanduíche com a mortadela quase vencida e recusou a feijoada. Só de raiva, a mulher nem deixou a cumbuca na geladeira. Congelou tudo e ainda tirou o toicinho, para dar aos cachorros.

É muito difícil gostar de futebol.

Luís Felipe dos Santos

Post copiado descaradamente do Impedimento, porque achei fenomenal.

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Comentários do Blog

1 Comentário

  1. Pô, eu preparando o elogio, achei que vc tinha voltado à velha forma de cronista (vide As Aventuras de um Paraibano em Pelotas), mas o texto é de outro!
    Mas enfim… bem interessante o texto!

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