Em 27 de fevereiro de 2008, escrevi um artigo em minha coluna no jornal DCI com o título “A taxa Selic pode ser 8,25% ao ano. Na época a taxa estava em 12,75% e o Banco Central, sob pretexto de conter a demanda para evitar a inflação, administrava mais um ciclo de aumento periódico da taxa Selic.

E-mails chegaram a minha caixa eletrônica criticando o percentual do artigo, não os argumentos nele apresentados. Parece ser característica de alguns economistas e analistas econômicos que vivem dando palpites diários sobre o porquê a bolsa subiu, o porquê o dólar caiu, opiniões rápidas que não interessam nem aos profissionais de investimento e menos ainda ao publico alheio à economia. Como diria o esclarecido Delfim Netto, se preocupam com bobagens passageiras e não se aprofundam na análise dos eventos passados e atuais que construirão a realidade futura.

Na semana passada, o Copom reduziu a taxa para 8,75% e não fico nem um pouco satisfeito em ver a previsão acontecer. Demorou muito e a nação pagou juros desnecessários pela lenta mobilidade da autoridade monetária. “Ah, mas o Banco Central precisa ser conservador”. Não, não precisa ser nem conservador, nem audacioso, precisa ser competente. O Dr. Meirelles está condenado a ser o Alan Greenspan de amanhã (vide post anterior Greenspan e Meirelles).

Crise Mundial

Na verdade, o Banco Central somente baixou aceleradamente a taxa Selic como resultado da crise econômica mundial e seu impacto interno. Da mesma forma, o Governo Federal reduziu os impostos do setor automotivo e da linha branca preocupado com queda na produção e o desemprego. Os impostos foram reduzidos de forma provisória, informa o Governo. Pois ele irá colher frutos provisórios e passageiros. De qualquer forma, a crise econômica mundial resultou, ainda que temporariamente, em grandes benefícios para o Brasil. Queda de juros e redução de tributos, no Brasil! Quem poderia imaginar. Bendita crise mundial. Você leitor, já ouviu alguém escrever isto. Pois repito: Para o Brasil, bendita crise mundial.

A taxa Selic e os impostos caíram e a economia respondeu positivamente. São os fundamentos de nossa economia – e não a crise mundial – que garantem esta atitude do Governo. Os fundamentos são a baixa inflação, o aumento de renda da população, a produtividade industrial, a liberdade no fluxo do comércio internacional. Não é a crise econômica mundial. Se fosse a crise econômica, nossa vizinha Argentina também poderia se beneficiar dela. Como os Kirchners adotaram o populismo do calote internacional e a punição dos produtores como política, a crise econômica só serviu para agravar tanto a economia daquele pais como a impopularidade dos demagogos.

Mas não devemos festejar os bons ventos que vivemos por muito tempo, pois o Banco Central avisa que irá parar com a queda da taxa Selic. Que argumentos usa para adotar esta posição?

Selic: Reduzir ou Aumentar?

O Banco Central informa que se baixar mais a taxa Selic terá que mexer na remuneração da poupança para não concorrer com a rentabilidade dos fundos de investimentos e da captação dos bancos. Desde quando a taxa Selic passou a ser instrumento de remuneração para competir com a poupança ou garantir rentabilidade para produtos financeiros bancários?! A taxa Selic deve ser usada como um dos instrumentos para controlar inflação.

E porque mexer na rentabilidade da poupança? A única medida financeira aplicável será retirar a remuneração da TR com o objetivo de desindexar os ativos financeiros, o que nossa situação econômica permite deste 2007.  A rentabilidade da poupança pode ser de 6% ao ano e será totalmente compatível com uma taxa Selic inferior, de 5 ou 4% ao ano. Os bancos que gozam de elevados spreads (diferença entre taxas de juros que pagam pelas aplicações dos clientes e a taxa de juros que cobram dos empréstimos) podem aumentar a remuneração de seus produtos dentro de um limite que lhes permita usufruir com segurança lucros saudáveis. Tratem de competir entre si e não de viver à custa de uma imerecida proteção financeira do Banco Central.   Não somos contra os bancos, nem contra os juros. Somos contra os juros e os serviços extorsivos e de má qualidade prestados pelos bancos aos clientes.

Neste fim de semana, o caderno econômico do Estado de São Paulo divulgou que o Banco do Brasil está reduzindo a taxa de administração de 5 fundos por ele administrado de 5,5% para 4% aa (BB, Renda Fixa LP 100). Isto é, o Banco do Brasil cobrava quase o rendimento anual da poupança para administrar dinheiro de seus clientes que é aplicado em grande parte em títulos do governo. Se o Banco do Brasil pratica estas taxas imagine os bancos privados. É por isso que não querem que a taxa Selic caia. Os bancos precisam deixar de mamar nas tetas financeiras do tesouro (antiga frase do Delfim Netto) e emprestar dinheiro para o setor privado a taxas maiores, bem maiores que a Selic. Quando assim procederem a taxa Selic não será razão de preocupação. Mas isto exige estrutura, e trabalhar é muito mais difícil que ganhar dinheiro rápido e seguro nas mesas de operações financeiras.

Dívida Pública

Argumenta-se também que se o Governo baixar muito a taxa Selic não haverá investidores para comprar títulos do tesouro e financiar a dívida pública. Quem defende esta tese ignora boas regras econômicas e desconhece a realidade da economia brasileira. Ao contrário, nossa dívida interna esta crescendo menos pela necessidade de caixa do Governo, e mais por aplicações financeiras especulativas internas e externas e mais, mas muito mais, pelas altas taxas pagas no Selic. Mesmo que os juros caiam até6% ao ano, considerando a credibilidade internacional do país, investidores preferirão receber 6% pagos em Real que 14% pagos em Bolívares Venezuelanos ou 18% pagos em Pesos Argentinos. É para isso que recebemos o chamado grau de investimento das agências de risco. Por outro lado, as reservas brasileiras em dólares estão superiores a dívida pública em dólar. Temos portando espaço e facilidade para ampliar nossa dívida externa. Como no momento as taxas de juros internacionais estão baixas e nossas taxas internas estão elevadas, se o Banco Central administrar com eficiência, a dívida pública deveria ampliar a dívida externa e reduzir a dívida interna. Se ter reservas em dólar passou a ser perigoso, ter dívidas em dólares tornou-se precioso. Por isso pagar taxas elevadas no Selic é jogar fora o dinheiro dos impostos. O dia em que o Lula fizer conta e descobrir que com a economia dos juros ele poderá ampliar a dotação de sua demagógica e bem sucedida Bolsa Família, ele vai ficar tiririca com a equipe do Copom.

Finalmente, recomenda-se que o Banco Central deve evitar baixar a Selic para não ter que elevá-la logo depois. Eis aí outra bela tolice econômica. É tolice, mas é bonita.  A cotação do dólar pode flutuar, as cotações das commodites flutuam, a Bolsa flutua, a própria taxa de juros também flutua e por que a taxa Selic não pode flutuar?! Ela deve baixar enquanto a economia suportar e precisa aumentar quando a economia exigir.

A inflação prevista para o ano é de 4,5% aa. Portanto a economia suporta uma taxa Selic de 6% durante o exercício de 2009. Que venha o crescimento econômico. “Ah, mas o crescimento econômico vai gerar inflação”. Não, não vai. Se fosse assim a inflação na China seria de 2.000% ao ano.

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