Em 1996, preocupado com a excessiva valorização das ações do setor chamado “ponto com” e dos demais ativos da bolsa de Nova York que registravam valorização anual superior a 20%, tendo superado a 6.000 pontos, Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve (o Banco Central Americano) cunhou a expressão exuberância irracional para chamar a atenção para a elevada valorização desses ativos.

Após a queda da bolsa no ano seguinte, conhecida como explosão da bolha do setor de informática, o prestígio de guru financeiro mundial de Greenspan cresceu, e esta expressão foi incorporada ao dicionário dos economistas para registrar preocupação com a elevação rápida de cotações das ações nas bolsas mundiais resultantes mais de especulações que de fundamentos econômicos.

Decepcionados com as perdas realizadas nos ativos virtuais “ponto com”, investidores, especuladores e dirigentes gananciosos de instituições financeiras internacionais se voltaram para os investimentos reais do mercado imobiliário, para a especulação com moedas e para as cotações das commodites, lideradas pelo petróleo. Dez anos depois produziram o tsunami financeiro mundial conhecido como a catástrofe das hipotecas americanas, que atingiu o clímax em 2008 quando o crédito e a credibilidade dos bancos internacionais desapareceram do mercado.

O maremoto financeiro atingiu nossas praias econômicas no final de 2008 surpreendendo nossa economia em crescimento de 6% a.a. reduzindo para apenas 1,5% o crescimento do quarto trimestre. O índice Bovespa que encerrara 2007 registrando 63.881 pontos, em dezembro de 2008 era de apenas 37.550.  Uma queda de 70%. Em 2009, após todo o esforço público e privado, o PIB estimado oscila entre 1% e 1,5%. Infelizmente não foi uma marolinha.

Governos de todos os países tiveram que injetar bilhões de dólares de seus contribuintes para salvar instituições agonizantes e reduzir os efeitos da recessão mundial. O Banco Central Brasileiro também fez o mesmo ,não para salvar bancos, mas para afastar a recessão.  O mundo econômico recebeu 2009 debaixo de pânico.

Entretanto, a  crise encontrou o Brasil em posição diferenciada em relação às economias dos demais países. A  dívida externa menor e sob controle, reservas elevadas e o saldo da balança comercial favorável.  Por isso, a crise mundial trouxe menos danos ao país que as crises econômicas localizadas da década de 90 que ficaram conhecidas como crise do México, crise da Rússia, etc. A analise da situação econômica brasileira saiu dos cuidados do FMI, a quem havia sido pago antecipadamente nossa dívida, e passou para as mãos das agências internacionais de classificação de risco que nos atribuíram o grau de investimento seguro.

A liberação de recursos do compulsório para os bancos, a queda das taxas de juros praticada pelo Banco Central  e a redução temporária de impostos federais para a indústria automotiva e linha branca foram ferramentas essenciais para alavancar a economia. E passado o primeiro trimestre de 2009 o mundo se voltou para o Brasil como porto preferencial para investimento.

Esta credibilidade eufórica resultou na entrada de recursos externos para a Bovespa, insignificantes para o caixa dos investidores externos, mas abundantes para o tamanho de nossa economia e de nosso mercado de capitais.  Os índices e as cotações das ações na Bovespa explodiram. A título de exemplo, registramos a seguir a variação do índice Bovespa, das cotações de três ações essenciais para nosso mercado e a entrada de recursos externo na bolsa.

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Os números demonstram que embora se tratem de empresas internacionais de excelente qualidade, a evolução das cotações está  mais vinculada à entrada de recursos externos no mercado que aos resultados econômicos das companhias. Se isto ocorre com empresas de rentabilidade diferenciada podemos concluir que o mesmo está ocorrendo com todas as cotações do mercado. Não há fundamento econômico sólido, não há expectativa de lucro suficiente para sustentar e remunerar no futuro próximo os preços que estão sendo praticados. A melhor justificativa está no volume dos dólares que estão sendo aplicados na bolsa de valores demonstrado no quadro anterior e cuja permanência é tão volátil quanto as cotações.

Se você conversar com qualquer profissional de mercado, analista, investidor ou especulador,  sairá com sentimento de que todos estão na expectativa de uma realização de lucros, que é mais um eufemismo para queda nas cotações. Bolha, credibilidade eufórica, realização de lucros, tsunami ou qualquer adjetivo que se pretenda usar,  o que se pode concluir é que a exuberância irracional de Greenspan está de volta. Os preços não deverão voltar aos valores da queda de 2007, mas quanto maior for a exuberância, mais penoso será o despertar.

PS: Este texto foi escrito em 18/10/09, antes da taxação da entrada do dólar e da subsequente queda da Bolsa de 20/10.

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