Este artigo se destina a todos os brasileiros nascidos a partir de 1964.

Atualmente não há quem defenda os militares que governaram o Brasil durante 20 anos, entre 1964 ate 1984. Nem mesmo entre os que os apoiaram. Mas por que os militares assumiram o governo? Contra o que lutaram e qual foi a reação da população diante do golpe que terminou com o governo do Presidente João Goulart em 1964 quando faltava apenas um ano para seu término e para as eleições que certamente teriam elegido em 1965 Juscelino Kubitchek?

Dois fatores corroeram a autoridade do Governo Goulart, um presidente fraco, hesitante, que chegara a presidência em conseqüência da renúncia lunática de Jânio Quadros e a demagogia sindicalista da CGT (precursora da CUT) comandada pelo líder sindical Dante Pelacani. Na época, os sindicalistas eram conhecidos como pelegos pelo servilismo com que colocavam as massas sindicais a serviço do governo e da corrupção.  Você pode acusar o Governo Lula de corrupto que ele não se incomoda, mas tente chamá-lo de pelego para ver o que acontece. A CUT nasceu para combater o peleguismo.

A corrupção e a ganância com que políticos de todos os partidos, principalmente do PTB da época, avançavam nos cofres públicos municipais, estaduais e federais tornaram os políticos impopulares. Diga-se de passagem, que se os escândalos daquela época forem comparados aos escândalos atuais tornariam aquelas raposas políticas – assim eram chamados os políticos – inocentes cordeirinhos de estimação.

As Marchas

Por isso o golpe de 1964 foi aplaudido pela população e também pela Igreja que patrocinava as famosas marchas por Deus e pela Família. Passeatas eram bagunças desorganizadas que os sindicalistas faziam quase diariamente para protestar contra a carestia e para apoiar o Governo. Acreditava-se que jogando empregados contra patrões, os empresários acossados cederiam as pressões do governo para estatizar, para realizar a reforma agrária, para fazer as reformas de base, para desapropriar sem pagamento prévio em dinheiro como estabelecia a Constituição da época. Portanto, passeata era coisa de pelegos, a Igreja patrocinava marchas. E os militares marcharam.

Para adquirir popularidade, os militares trataram nos primeiros dias de banir da vida pública os políticos corruptos, caçando mandatos e direitos políticos por 10 anos.  Foram aplaudidos. Basta buscar os nomes das primeiras cassações e comparar com os delitos dos cassados para entender a satisfação popular. Houve um governador do Paraná chamado Moyses Lupion que loteou uma praça. Isto mesmo, uma praça. Seu nome estava lá na primeira lista de cassações.

Mas o poder corrompe. A principal corrupção é transmitir ao governante desejo de nele permanecer com ou sem apoio popular. No inicio de 1965 trataram de caçar o mandato do Senador Juscelino, afastando o forte concorrente. Foi a principal cassação política e, cometido o primeiro crime, centenas vieram a seguir. Construir uma nação exigia medidas impopulares, acreditavam os militares, e entre elas se incluía a perseguição aos adversários. A popularidade e o reconhecimento viriam no futuro quando os frutos do progresso pudessem ser colhidos.

E de fato houve progresso durante os governos militares. Quando assumiram o poder o PIB brasileiro era o 42º no ranking mundial. Quando o entregaram em 1985 ocupava a 10º posição. Não foi apenas progresso econômico. Houve preocupação social também. FGTS, PIS, PASEP são fundos sociais criados pelos militares. Cuidado com a educação e integração nacional: Projeto Rondon e Mobral.

Não há prazer ou tristeza em descrever tais fatos. Eles simplesmente aconteceram, queiram os atuais contadores da História ou não.

Mas era governo democrático ou ditadura?

Após a edição do AI 5 (Ato Institucional 5) o país foi governado de forma ditatorial. Sobral Pinto, um velho advogado defensor da liberdade e da democracia que ficara famoso na década de 30 por defender Luiz Carlos Prestes da ditadura de Getulio Vargas usando como argumento a legislação de proteção aos animais, publicou brilhante análise deste AI 5 e quem o tivesse lido na época não poderia ignorar: Estávamos sobre o regime da ditadura.

A economia cresceu no Governo Médici, veio o milagre econômico (crescimento anual acima de 10% ao ano) e em 1970 o Brasil se tornou tricampeão mundial. O Governo Médici foi o Governo mais duro entre todos os governos militares. Mas foi também o mais popular. Castelo Branco era culto e gostava de teatro.  Costa e Silva tinha um perfil de lulista – diziam quem nunca lera um livro depois que saíra da academia militar – e preferia um carteado. Já Médici era espartano, discreto, mas adorava futebol. Quando ia ao Maracanã era aplaudido.

Diante de um governo duro, com o crescimento econômico surpreendente e popular, elementos da esquerda, por desespero ou fanatismo (idealismo sem opção se entrega ao fanatismo) optaram pela oposição armada, pela guerrilha, pelos seqüestros e assaltos a bancos. Aliás, esta opção já havia sido iniciada durante o governo de Costa e Silva.

Hoje se apresentam como heróis, como defensores da democracia.  É possível que as pessoas mudem e hoje podem ser democratas. Mas na época não eram. Queriam substituir uma ditadura que detestavam pela sua própria ditadura. Castro, Guerava e Mao Tse Tung eram suas referências.  E o povo? Ora, o povo! Eles eram idealistas. Idealistas que assaltavam bancos. Que roubavam cofres alheios. Que matavam. Que seqüestravam embaixadores. Idealistas terroristas que, faziam justiçamento, isto é, reuniram-se em comitês decretando a morte de adversários ou de companheiros dos quais desconfiavam. Assim foi Carlos Lamarca. Herói que combateu a ditadura como querem seus admiradores e traidor do exército brasileiro como foi executado.

O fato é que não foram os que pegaram em armas que causaram a queda da ditadura brasileira.

Adeus às Armas

Na área militar onde se realizavam as eleições para escolha do presidente houve cisão. Uma ala, comandada por Geisel e Golbery (Ministro da Casa Civil, posto hoje ocupado pela Sra. Dilma Roussef) defendia a devolução do poder aos civis numa abertura lenta, gradual e segura. Outra ala, comandada pelo Ministro do Exército de Geisel (General Frota, que aspirava substituir ou destituir Geisel) e suportada pelos porões da tortura pregava o endurecimento do regime. Geisel venceu sem a ajuda dos políticos, sem a ajuda dos idealistas de esquerda, extinguiu o AI5 e entregou o governo ao General João Batista Figueiredo. Este, ao assumir o poder, sabia que seria o último presidente militar.

No governo Figueiredo foi decretada a anistia recíproca para perseguidos políticos e seus perseguidores, e assim puderam voltar antigas raposas políticas como Brizola, Arraes e os perseguidos seqüestradores como Gabeira, José Dirceu. Voltaram como heróis.  Foram heróis! O tempo mostraria o que realmente eram ou em que se tornaram.

O certo é que a abertura política se deve muito mais aos ditadores Geisel, Golbery, Figueiredo, aos políticos da oposição que operaram dentro da lei como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Negrão de Lima, Orestes Quércia, Franco Montoro e até Paulo Maluf (eleito governador em oposição ao candidato do Presidente Figueiredo) que aos homens que hoje editam normas que revogam a lei de anistia para seus antigos adversários. Mas não para seus próprios crimes. Desejam continuar recebendo indenizações por terem partido para o conflito armado e perdido a guerrilha.

Em 1985 o poder foi devolvido aos civis e em vez de reconhecimento pelo progresso deixado todos os militares colhem hoje o opróbrio pelos delitos cometidos por poucos no subsolo da perseguição política. Os fins não justificaram os meios. Mas isto até os romanos sabiam.

No próximo artigo continuaremos a falar sobre a evolução dos políticos e dos militares.

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Comentários do Blog

5 Comentários

  1. Gawaim disse:

    Finalmente! Uma luz na escuridão do Brasil petista….

  2. […] Esse post é uma continação de Pelegos Corruptos, Militares Golpistas. […]

  3. Glaucia Marafanti disse:

    Nos mulheres somos curiosas! Nao nos maltrate.
    Acho que vou dar uma de “Otoridade” no autor deste Blog.
    Vou apelar para a ANNA.

  4. Glaucia Marafanti disse:

    Sintese historica neutra e bem feita.Parabens ao autor.
    E a segunda parte! Quando o Blog vai publicar

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