Uma história de terror no mundo da informática

pc zumbiCheguei a conclusão que meu apartamento foi construído sobre um cemitério de computadores indígenas! Não, eu não enlouqueci, nem acabei de assistir uma maratona de Poltergeist. Estou apenas aceitando a melhor explicação possível, dado o histórico do local: as coisas que acontecem com os computadores na minha casa, nem Bill Gates ou Mãe Diná conseguem explicar.

Já perdi dois HDs, sendo que um explodiu, com direito a efeitos sonoros, fumacinha e tudo. Placas-mãe, de video, fontes vão pro beleléu a torto e a direito. A maresia poderia até explicar parte do estrago físico, mas seria muito simplista jogar toda a culpa nela. E certamente não explica as loucuras que não são de hardware, como um roteador sem fio que recusa a conexão segura do tablet, o mesmo tablet que conecta com WPA2 em qualquer outro lugar. Uma rede que bloqueia sites como Globo Esporte ou Jornal O Globo apenas pelo Firefox de dois computadores, liberando o acesso pelo Internet Explorer ou Chrome. Um Firefox que age sempre como se tivesse sendo usado pela primeira vez, precisando configurar tudo de novo. Um computador que não desligava, só reiniciava. E depois passou a não ligar mais…

Enfim, não vou aborrecer vocês com esses detalhes, afinal nem todo mundo que está lendo esse post é técnico de informática ou pai de santo. O fato é que cada vez mais acredito que o lugar é assombrado por almas de computadores e periféricos antigos, ensandecidos pela solidão e esquecimento que o mundo frenético de hoje os relegou. O que eles querem? Apenas serem lembrados com carinho e ternura? Ou buscam vingança contra aqueles que mais os maltrataram: os usuários?

Só sei dizer que minha casa virou cenário para um novo gênero de filme de terror: primeiro existia o horror gótico, então o terror psicológico e depois veio o terrir. Fique agora com o…

INFO-TERROR!

A noite na cidade estava estranhamente silenciosa. Um vento constante e gelado, cortava a pele e trincava os ossos daqueles que ainda se aventuravam na rua. Poucas luzes ainda permaneciam acesas, esquecidas por moradores que adormeceram em frente à TV. O luar fraco refletia em algum canto do meu quarto, incomodando a vista. Levantei-me para fechar a cortina, mas o brilho continuou. Curioso, fui investigar: vinha de meia dúzia de CDs da AOL! Um frio passou pela minha espinha. Como esses CDs vieram parar aqui?

Eu lembro que tive centenas de CDs que ofereciam “X” horas de internet discada gratuita, bastando instalar seus malditos programas discadores. No início, eu até os guardava, mas logo se tornaram uma praga. Não adiantava usar como descanso de copo, doá-los ou jogar fora: para cada CD que eu me livrava, dois apareciam do nada. Porém, depois de um tempo, assim como uma epidemia de gripe, os CDs desapareceram, sem alarde. Quer dizer, até agora.

Procurei não pensar mais nisso e fui me deitar novamente. Mas toda vez que eu encostava a cabeça no travesseiro, ouvia um estranho ruído vindo dele. Logo identifiquei aquele chiado: era o mesmo som que algumas pessoas ainda escutam quando usam a internet discada. Mas eu lembro dele bem antes disso, quando colocava pra escutar as fitas cassete com programas gravados para meu CP-2oo. Não acreditava que eu estava sendo assombrado em BASIC!! Só podia ser um pesadelo.

Atirei o travesseiro para longe, derrubando a pilha de CDs da AOL. Mas seu uivo fantasmagórico não parou. Gritei, irritado: “Parem com isso! O que vocês querem?!” O barulho parou. Mas logo foi substituído por sons de tiros. Me joguei no chão, assustado. Isso não era uma simples alucinação, minha vida estava em perigo. O sangue pulsava em meus ouvidos, o coração batendo forte. Escondido, vi de onde veio o barulho de tiro: um velho Winchester. Juro que sobre o antigo disco rígido parecia flutuar a imagem embaçada de um general de cavalaria americano, rindo e zombando de X-ray of Hands with Keyboard and Mousemim, descontroladamente, com os olhos esbugalhados e totalmente descompassado. Uma expressão assustadora saltava de seu rosto, impingindo pavor em qualquer um que ousasse fitar sua linha de visão malévola.

Ainda no chão, um estalo me chamou a atenção. Olhei para baixo da cama e, bem próximo ao meu rosto, semi-enterrados em uma pilha de roupa suja, disquetes de 3½” estavam se mexendo. Eles forçavam a tampa de seus caixões de plástico bege, caindo sobre os corpos descompostos de disquetes de 5¼”.

Aos tropeções, consegui me levantar e corri para fora do quarto e longe daquele hospício cibernético. Fechei a porta, escorando-a com o corpo. Senti pancadas vindas de dentro, como se algo ou alguém tentasse forçar a porta. Até que tudo ficou quieto novamente.

Fui ao banheiro lavar o rosto, desejando que esse terror fosse embora junto com o suor que a água lavava. De repente, a luz do banheiro apagou e a porta bateu violentamente. O chuveiro elétrico ligou sozinho. E agora? Olho dentro do box para desligar a torneira? Na escuridão não conseguiria ver muita coisa mesmo. Ignorei o chuveiro e tateei meu caminho até uma caixa de fósforos e uma vela. Acendi e pude dar uma olhada ao meu redor. Tentando manter o sangue frio, ignorei a memória DIMM que jazia enferrujada na caixa de velas e fui até o box. Com um chute rápido na porta, meus olhos não acreditavam no que viam: os azulejos estavam totalmente quebrados, revelando carcaças de vários PC 286 emparedados, agonizando e amaldiçoando a obsolescência programada.

Corri para porta do banheiro, forçando-a abrir, apenas para encontrar minha passagem bloqueada por uma velha impressora matricial, barulhenta e sem fita, mas ainda assim tentando imprimir, cuspindo folhas de formulário contínuo. Suas luzes vermelho e verde piscavam frenéticamente.

A última coisa que me lembro é de um ZIP Drive sendo arremessado em minha direção, antes de acordar pairando, nessa forma fantasmagórica, ao lado dos espectros de monitores de fósforo verde.

Não existe mais medo. Uma paz toma conta da meu espírito. E uma enorme vontade de jogar o Telejogo da Philco.

videogame antigo

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4 Comentários

  1. Mario Jorge disse:

    Antonio Carneiro esqueceu de tomar os remedinhos hoje de manhã.

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by Matheus Paviani, Antonio Carneiro. Antonio Carneiro said: A Meia-Noite Formatarei sua Alma: http://bit.ly/dVs1pf [...]

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