Super Mãe e Super Bebê: Um relato pessoal de uma mãe sobre sua experiência com parto prematuro

Mãe é tudo igual! Será mesmo? Talvez sim, talvez não. Mas posso dizer, com certeza, que o processo de formação de cada mãe é diferente, bem como é diferente a construção de sua relação com os filhos. Desde a gravidez, nós, mulheres, sonhamos com o bebê que estamos gestando, idealizamos o parto, imaginamos nosso bebê sempre gordo, saudável e feliz. Mas nem sempre as coisas acontecem do jeito que imaginamos e isso afeta diretamente o tipo de mãe que seremos.

Quando o nascimento é prematuro, toda a ordem natural das coisas é modificada e o nascimento passa a ser encarado como algo assustador. A começar pelo parto, apressado e difícil, sem que se saiba se no final haverá vida: vida do bebê e vida da mãe.

Após o chorinho débil e frágil, anunciando que seu bebê está ali, o alívio é logo substituído pela separação e a despedida é repleta de culpa por não podermos acompanhar aquela criaturinha, que nada tinha de bonita, saudável e gorda.

Toda gravidez é dividida em 3 fases, cada uma delas com duração aproximada de 3 meses. Na primeira, temos o embrião. Na segunda, vemos o feto através das ultras. Na terceira, ele se transforma no bebê pronto para vir ao mundo. Minha filha nasceu feto, não nasceu bebê. E precisou de 101 longos dias para se transformar no bebê que viria conosco para casa.

mãe e pai prematurosO bebê prematuro faz sua inserção na vida de uma forma bem diferente. No lugar de ser apresentado ao mundo nos braços amorosos de sua mãe, ninado e festejado pela família que o planejou e desejou intensamente, ele é rapidamente separado de sua mãe. A introdução ao mundo é feita pelo pai, que o acompanha até a UTI neonatal, enquanto a mãe permanece sob cuidados médicos, tentando se recuperar para poder estar com ele o mais rápido possível.

Portanto, é o pai, e não a mãe, que o acompanha em suas primeiras horas, acompanha os procedimentos médicos, é o pai que primeiramente acalma e conhece o filho, para só depois apresentá-lo à mãe, física e emocionalmente abalada. É o pai que ajudará aquela mãe a conhecer aquele filho tão distante do seu imaginário, é o pai que a incitará na construção do vínculo familiar, é o pai que reconhecerá as primeiras reações do bebê e as explicará para a mãe.

Tudo bem diferente daquilo que normalmente costuma acontecer. A mãe fica ali, sentindo-se desamparada por não ter conseguido levar a gravidez até o fim, preocupada se os médicos e enfermeiros estão cuidando adequadamente de seu filho. Ela vive a expectativa da sobrevivência do bebê e da formação de vínculo com aquela criança que está confinada na incubadora e ela mal pode tocar. Trata-se, como bem disseram antes, de uma “espera fundada na probabilidade” (Figueiredo, 2004).

Minha filha ficou 101 longos dias na UTI até ser liberada para vir para casa. Durante esse período, eu chegava ao hospital às 8h da manhã e saía às 22h. À noite, ainda acordava sozinha, de três em três horas, para bombear o leite manualmente de modo a conseguir mais leite durante o dia para alimentá-la por sonda gástrica.

Era dificílimo entender que ela não podia vir para casa, que eu não podia pegá-la no colo (isso só foi acontecer quando ela já estava com uns 20 dias de vida), que eu não podia alimentá-la diretamente… Foi difícil ver outros bebês menos graves entrarem e saírem enquanto minha filha continuava lá, lutando para viver.

Em cada um dos dias em que eu visitei naquela UTI, eu entrei com medo de receber más notícias. E em todas as noites em que estive em casa sem minha filha, tive medo de receber um fatídico telefonema. Liseane Morosini, criadora do site Nascer Antes, afirmou acertadamente numa entrevista que “não há tempo de curtir o bebê, principalmente porque a preocupação é ver como se dará sua evolução”.

Eu acabei fazendo um curso intensivo de neonatologia, aprendi a ler monitores e fichas médicas, conheci medicamentos e aparelhos como cpap, oxímetro, aprendi a verificar a saturação e a ver se o bebê estava cianótico, tudo que passa bem longe do imaginário de uma mãe quando ela engravida.

Nós, mães de bebês prematuros, somos também mães prematuras. Mal tivemos tempo de terminar o enxoval, não curtimos o instinto do “aninhamento” que consiste em preparar o ninho para receber o bebê. Também ficamos com a permanente sensação de que todos os enfermeiros e médicos conhecem e cuidam do bebê melhor do que você. Mas isso passa. E o que fica é a sensação de deslumbramento com aquele bebê. Morosini, mais uma vez, foi brilhante ao declarar que “sabia que eles jamais estariam em uma capa de revista, mas eram belos em seu esforço pela vida”. Realmente, bebês de baixo peso podem assustar, e a minha filha ainda nasceu com menos de 1 kg (mais precisamente, nasceu com 820g, chegando a pesar 660g), mas aprendi, rapidamente, a ver a beleza dela, a força e a raiva que a impulsionaram a viver.

Em tantos momentos me surpreendi ao ver como aquele ser pequenino tinha tanta força para brigar contra movimentos invasivos, a ponto de conseguir arrancar a sonda inúmeras vezes. Acostumei-me tão profundamente com aquele bebezinho magrinho e enfezado que passei a estranhar os bebês que nasciam com mais de 2,5kg. Para mim, aqueles eram bebês excessivamente gordos e eu ficava desajeitada na hora de pegá-los!

monitor prematuroRecentemente, tive uma outra filha, vivi uma outra experiência, mas até hoje carrego as marcas daquela vivência. Entretanto sei que em toda experiência há aspectos positivos. Ver minha filha em ação é o maior exemplo disso.

Reconheço ainda hoje que também ela tem suas marcas, de modo que admiro sua independência, sua voluntariedade, sua teimosia, a força com que ela luta pelo que considera dela e o modo como se agarra à vida! Hoje, percebo que ela não gosta de ficar limitada a um espaço físico restrito. Sua frase favorita é “Quero passear”!

Não há como não perceber nela a vontade de abraçar o mundo, de absorver as coisas em seus mínimos detalhes, e de aproveitar ao máximo tudo o que as pessoas, conhecidas ou não, têm para lhe oferecer! Mesmo ainda bem pequenininha, ela sabe se sobressair, chama atenção pela sua audácia, corre livre pela vida!

E eu fico aqui, até hoje, orando pela minha filhinha e derramando minhas lágrimas com qualquer história de prematurinho, sejam eles seres humanos ou animaizinhos nas incubadoras do zoológico.

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Nota do Editor: Nos EUA, existe a March for Dimes, uma marcha para ajudar arrecadar fundos e conscientizar a população sobre a questão dos partos prematuros. São cerca de meio milhão de bebês que nascem prematuramente por ano só nos EUA (leia mais aqui). No Brasil, não existe um movimento desse tipo. Será que é porque o problema não existe ou é porque nós seríamos tão mais ricos e conscientes dos que os norte-americanos? Que tal um dos nossos amados políticos separar uma parte da graninha arrecadada com o Imposto de Renda para ajudar nesta causa?

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4 Comentários

  1. Lu Lopes disse:

    Obrigada! Parabéns para você também!

  2. daianadepaula disse:

    parabens,torço muito p q esteje tdo bem com vcs,passei por tdo isso tbem,mas graças a deus estou aq com minha guerreira,tdo de bom p vcs??????

  3. ELISA disse:

    Que lindo, Luana! Quanta força de vida, amor de sobra, esperança, determinação e uma lista de coisas positivas você passou com o seu texto! E com certeza essa experiência fez de você uma pessoa mais forte ainda, uma mãe mais preparada para a vida e para os momentos traumáticos, para lidar com as intempéries típicas. Ah, e que homenagem ao pai das meninas, não é? Reconhecer a importância do papel dele naquele momento e, é claro, em todas as fases da vida não é para qualquer uma. Parabéns à família toda!

  4. Keila Marconi disse:

    Lindo! Fiquei mais fã da Luana ainda!!! :)

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