Há algum tempo escrevi um conto com zumbis que teve um feedback bem positivo. Estou pensando em uma continuação para ele, mas enquanto isso, escrevi esse novo conto tendo a Lenda do Lobisomem como foco principal. O conto é maior que o anterior, já que aquele não tinha nem  diálogos, mas acredito que mantém um estilo semelhante. Como sempre, sugestões, elogios e críticas construtivas são bem vindas.

astronauta mulher terrorClaudia estava tão ansiosa que se dependesse apenas da sua vontade iria tomar uma caixa inteira de tranqüilizantes. Mas ela sabia que não podia. E nem conseguiria se automedicar às escondidas, uma vez que suas funções vitais estavam sendo monitoradas pelo controle de vôo.

Claudia Otsoa era tripulante da Adam III, primeira nave espacial construída e operada pela iniciativa privada com o objetivo de alcançar a Lua. Juntamente com o capitão Arthur, Claudia estava escalada para descer no módulo São Jorge e acoplar na base internacional. Lá, sua missão era ajudar na instalação de mais um módulo lunar, também o primeiro pertencente a uma empresa privada. Tanto a nave como o módulo da base lunar eram um empreendimento da multinacional e multibilionária Otsoa Enterprises.

Como qualquer um pode perceber o nome não é uma coincidência, a empresa pertencia a Matheus Otsoa, irmão de Claudia. Numa tripulação composta por um piloto de caça veterano de duas guerras, um cosmonauta aposentado que detém o antigo recorde de permanência em gravidade zero, e um engenheiro espacial com mais diplomas e certificados do que dedos nas mãos, não era segredo que a presença da jovem arquiteta era puro nepotismo. Mas você não via os tripulantes reclamando: além de muito bonita, Claudia era bem alegre e simpática, o que tornava a viagem à Lua mais agradável.

Nas últimas horas, entretanto, ela estava mais séria, calada, preferindo isolar-se no interior do módulo São Jorge.

– Acho que eu vou lá falar com ela – disse Arthur, o capitão da Força Aérea. – Ela está lá dentro há umas três horas.

Segurando seu braço, o comandante Popov o impediu:

– Deixe-a. É normal cosmonautas ficarem ansiosos quando estão mais próximos dos seus objetivos. Alguns pela pressão do trabalho, outros simplesmente porque estão prestes a realizar seu maior sonho. Acredito que este seja o caso da Srta. Otsoa. Ela vai ficar bem.

Arthur respeitou o chefe da missão, mas não se convenceu totalmente. Procurou Fred, o engenheiro. Com sua ajuda, conseguiu hackear o sistema e acessar os dados vitais da colega. Com sorte, conseguiriam acionar a câmera do módulo. Assim, ele não forçaria a entrada, acatando a ordem do comandante, mas poderia saber se ela estava realmente bem.

Enquanto isso, no interior do módulo, Claudia olhava pela escotilha para a Lua, que crescia em sua plenitude. Lá estava ela, bem a sua frente, enorme e majestosa. Em breve, iria pisar em seu solo, conquistando-a. Vencendo-a. Recuperando sua vida.

Seus colegas na Adam III pensavam que ela estava ali apenas por um capricho do seu milionário irmão. Mas ele estava salvando sua vida, pela segunda vez. Como eles poderiam saber da verdade? Como saberiam que ela era um Licantropo, uma metamorfa, no popular, um lobisomem! Ou lobismulher,se essa palavra existisse.

Seu irmão era o único que sabia da verdade. Ambos estavam de férias, visitando o país basco, quando foram atacados por um animal selvagem. A esposa de Matheus foi morta na hora, Claudia ficou ferida e só não morreu porque Matheus chegara com seus amigos, assustando a fera. Alguns ainda voltaram na mata, tentando localizar e matar a criatura, mas não tiveram sucesso. Seu irmão não foi com eles. Após tentar primeiros socorros inúteis, ele, ainda coberto com o sangue das duas, colocou-as num carro e levou-as ao hospital. Essa foi a primeira vez que ele salvou sua vida.

Mas o que nem ele ou ela sabiam, é que esse foi o início do seu inferno. A maldição do lobo que corria em suas veias lhe concedia força, vitalidade e até sex-appeal (ação de novos ferômonios?), porém a transformara em um monstro assassino sempre que a lua cheia iluminava o céu.

Matheus prometeu-lhe que iria usar todos os recursos disponíveis para estudar e entender o que acontecera com ela, chegando a uma cura. O tempo passou, e nada concreto aparecia. A Otsoa Enterprises foi crescendo, adquirindo mais recursos e finalmente algumas respostas começaram a surgir.

Ela nunca esqueceu a conversa que acabou por colocá-la a bordo do foguete:

– Claudia, acredito que estou muito perto de compreender o fenômeno, mas para achar a cura preciso de mais tempo.

– Mais tempo? Você tem idéia do que é viver como eu vivo? Um terror constante, sem ter para onde correr, sem poder fugir de um monstro que sou eu mesma? – Ela sabia que era injusto gritar com ele, mas precisava desabafar. Gritou, esbravejou e quando começou a chorar, ele se aproximou, envolvendo-a em seus braços, procurando acalmá-la.

– Se meus cálculos estiverem corretos, você finalmente terá para onde correr, um lugar para se esconder até que possamos eliminar o monstro. – Isso prendeu a atenção da Claudia, que levantou o rosto, enxugando as lágrimas e procurando prestar mais atenção. Ele continuou:

– Nossos cientistas levaram em conta todo o folclore do lobisomem, mas estudando sob uma ótica séria, analítica. Se a gente tirar algumas bobagens que foram acrescentadas ao longo do tempo, temos várias características consistentes nas fábulas.

– Sim, eu viro monstro na lua cheia!! – Claudia ameaçou se descontrolar de novo, mas foi logo interrompida por Matheus.

– Exato. Por que só na lua cheia e não na minguante ou nova? E por que de dia não ocorre transformação?

A jovem arquiteta nunca tinha se questionado sobre isso. Conhecia a lenda e a aceitava. Não tinha parado para pensar nessas questões.

– Veja, Claudia, nossos cientistas descobriram que a Licantropia é efeito de um vírus, uma infecção estranha e rara, mas nada de sobrenatural. Não sei como chegou aqui. Pode ser que tenha sido através de meteoritos que costumam bombardear a Terra o tempo todo. O fato é que essa infecção causa uma mutação no DNA humano. Os seus efeitos estão presentes o tempo todo, normalmente bem pequenos para chamar a atenção. Mas eles aumentam na lua cheia, quando acontece a transformação do Lobisomem.

Matheus pegou uma pasta com relatórios, anotações e ilustrações produzidas por seu Departamento Científico. Os desenhos ajudavam Claudia a compreender a explicação.

– Segundo este estudo, o problema é causado por uma combinação de efeitos. Já te falei do vírus que corre em seu sangue. Mas o que ativa as mutações é a luz solar. Na verdade, a luz do Sol filtrada por um gás existente na atmosfera terrestre. Não sabemos ainda qual, mas…

– O sol?! – Interrompeu Claudia, sem conseguir esconder a surpresa.

– Parece óbvio, afinal a Lua é um satélite sem luz própria, não existe tecnicamente um “luar”. A lua cheia é a fase em que temos uma maior quantidade de luz solar refletida. Luz suficiente para que a mutação se complete.

– Mas então porque de dia eu não viro um monstro ainda pior?

– Ah, aí é que entra o último fator. O campo magnético da Terra. De dia, ou seja, no lado exposto ao sol, ele é mais forte, bloqueando a interação com esse gás atmosférico. De noite, o campo magnético está mais fraco e não pode protegê-la.

– Certo… – A irmã concordava, sem estar certa se compreendia realmente.

– Uma vez fora da atmosfera terrestre, você vai estar livre desse problema. Livre dos efeitos transmórficos do vírus. Ainda vai estar contaminada, mas pelo menos não se transformará no monstro.

– Mas o que você está sugerindo?

– Até que descubramos uma cura definitiva, o lugar mais seguro é a superfície da Lua. É irônico, mas é o jeito. Consegui um lugar pra você a bordo da estação lunar. Ser presidente da Otsoa Enterprises tem suas vantagens e privilégios.

E assim, aqui estava ela, a primeira arquiteta rumo a Lua. E o primeiro licantropo também. A essa altura, ela não contava com a proteção do campo magnético terrestre. Essa deveria ser a razão por ela estar se sentindo tão estranha. Em alguns momentos, ela poderia jurar que ia começar a se transformar, mas aí a sensação passava. A sua pele coçava, ficava vermelha e sentia uma raiva enorme sem motivo. E no instante seguinte, a sensação era oposta: sentia-se mais leve, a mente bem clara e o raciocínio mais aguçado do que nunca.

Foi em um desses momentos de claridade que Claudia resolveu aproveitar para repassar sua missão oficial mais uma vez. Nada como mergulhar nos computadores e nos cálculos complicados para distrair sua mente.

Alguma coisa, no entanto, estava errada. E dessa vez não era com ela e sim com os dados que lia no computador. Bem, apesar de brincar de astronauta, ela não era nenhuma cientista espacial, então poderia estar errada. Acionando o comunicador, procurou seu piloto, Capitão Arthur.

O oficial não esperava o chamado e levou um susto. Tentando disfarçar seu monitoramento, ele atendeu a jovem tripulante. Talvez o Comandante Popov estivesse certo: ela fez perguntas sobre o espaço, a Terra, e como algumas forças naturais funcionavam. Respondeu a todas as questões técnicas, mas aproveitou para tentar acalmá-la. Não importava se o motivo era particular ou profissional, as suas leituras biométricas estavam muito estranhas. No espaço, a vida de um astronauta dependia de seus companheiros e não poderia haver um elo fraco. Arthur gostaria de mostrar as leituras para Popov, mas como explicar que ele estava monitorando a garota sem parecer insubordinado ou pervertido? O melhor seria ir pessoalmente ao módulo e insistir para que ela abrisse a porta.

Claudia estava realmente confusa. Ao contrário do que o relatório científico mostrado pelo seu irmão afirmava, o campo magnético da Terra era mais fino de dia e não à noite! Se o campo magnético noturno do planeta era mais espesso à noite, então ao sair do espaço terrestre ela estava correndo um grave risco.

Mas ela ainda não compreendia. O assunto era complicado e sua mente flutuando entre uma grande confusão e um brilhantismo incomum não ajudava. Se o relatório que seu irmão mostrou estava errado, então por que ela não virava lobisomem de dia? Pense, mulher, pense… enquanto você ainda consegue.

Claudia escutou batidas na porta do módulo, seguidas pela voz de Arthur, mas ela não conseguia se concentrar no que ele dizia. Toda sua atenção estava no problema à sua frente. E na coceira, que voltou a tomar seu corpo violentamente.

A parte da história que dizia que o vírus superestimulado pela luz solar era responsável pela transformação mutante fazia sentido. Mas o que impedia que o monstro aparecesse de dia, afinal?

O Lobisomem e a Lua sempre estiveram intimamente relacionados. Talvez, a chave fosse algo na lua e não na atmosfera terrestre. Não seria a luz do sol direta o problema, e sim a luz do sol refletida na lua. Algum material que existia só na lua estaria agindo, filtrando ou juntado-se a luz do sol. De dia, não havia problema algum, já que não há luar. De noite, com a luz forte da lua cheia, lobisomem.

As batidas na porta já estavam incomodando, mas ela não tinha tempo a perder. Pêlos começaram a crescer em seus braços e suas unhas começavam a se tornar garras. Uma dor lancinante atingia cada poro do seu corpo.

Ela precisava sair dessa nave. Precisava mandar a nave voltar pra Terra. Precisava fazer alguma coisa. Olhou seu reflexo, mas não se reconheceu. Via o monstro aparecendo. Poucos momentos de consciência lhe restariam.

De repente, ela se lembrou do novo módulo para a estação lunar. Precisava sair deste módulo de pouso e ir para o módulo da estação. Ao contrário deste, aquele não tem janelas e possui uma blindagem muito melhor, já que foi feito para agüentar muito mais tempo exposto às condições do espaço.

Do lado de fora, Arthur esmurrava e gritava por Claudia. Até que pelo comunicador veio a ordem do Controle de Vôo. Depois de leituras muito estranhas, eles perderam qualquer feedback. Não conseguiam nenhuma informação sobre a tripulante VIP. Arthur recebeu ordens de verificar o que houve. Popov acionou o comando-master, que destravou remotamente a porta do módulo São Jorge.

mulher lobisomemO piloto veterano tinha visto muita coisa em sua vida, mas nada como aquilo. Em vez da linda garota de sorriso jovial, ele via uma criatura parte animal, parte humana. A parte humana parecia remotamente com Claudia, mas sua voz era um urro assustador. A criatura estava mudando, ficando cada vez mais parecida com um lobo gigantesco.

O lobo avançou contra ele e, num ato reflexo, Arthur agiu em prol da segurança da nave, dos outros tripulantes e da missão. Em vez de fugir, ele fechou a porta do São Jorge, acionando a trava magnética. Com isso, ele recebeu o golpe do monstro em cheio em suas costas. Sentia seu uniforme dilacerar, depois suas costas. Mãos pesadas e com garras envolveram seu pescoço e ele se preparou para o fim.

Entretanto, sentiu as mãos pararem, afrouxando o que seria o golpe final. O piloto conseguiu se desvencilhar e arrastou-se para baixo de um console. Olhou em volta, procurando algo que pudesse ser usado como arma. Arrancou alguns cabos elétricos e segurando um em cada mão, pensou no velho truque do choque. A carga talvez o matasse também, mas pelo menos levaria o lobo com ele.

O lobo, que Arthur não fazia idéia como viera parar ali, e porque se parecia tanto com Claudia assim que ele entrou, começou a se contorcer no chão, como se tivesse um ataque epiléptico. As garras e a cauda cresceram ainda mais. O focinho se alongou quatro vezes mais. O pêlo começou a cair.

Agora imóvel no chão, Arthur criou coragem para soltar os cabos, se levantar e chegar perto do monstro inerte. Sem a cobertura de pêlos, ele não tinha dúvidas que aquilo fora um dia Claudia. Mas agora era algo mais. Uma mistura de lobo, com mulher e mais algum animal… um lagarto, talvez. Sim, escamas começaram a aparecer em toda sua pele, criando uma couraça. Mesmo inconsciente, uma língua bifurcada surgiu e serpenteava por todo lado.

O chamado pelo rádio de seus colegas e do Controle de Terra, tirou o piloto do seu transe. Ele precisava fazer algo. A criatura, agora mais lagarto do que lobo ou mulher, continuava mudando, crescendo e a qualquer hora poderia acordar. Se o monstro anterior já era uma ameaça, o que estava surgindo então era impensável.

Não podia simplesmente sair e fechar a porta pelo lado de fora. O monstro abriria aquilo como se fosse papelão. A única solução era desengatar o módulo de pouso da nave principal. Olhou rapidamente e viu que os controles remotos de vôo e o piloto automático estavam inutilizados. Ele arrancara os cabos de força para se proteger do lobo.

Ele sabia o que isso significava. Como soldado, tinha se preparado para um momento como esse. O sacrifício final.

Pelo rádio, ele explicou a situação para seus colegas. Desengatou o módulo na hora em que escutou um barulho alto vindo atrás de si. Uma respiração pesada aquecia suas costas feridas. Sem olhar para trás, ele colocou o módulo em rota de colisão com a superfície da Lua e acelerou.

Finalmente, olhou para trás. Petrificado, não aceitava o que seus olhos viam. Não podia ser. No terror, ele deve ter perdido sua sanidade. Primeiro tinha visto um lobisomem. Agora o que via só podia ser descrito como um dragão.

Dragão. Princesa. São Jorge. Lua. Lobisomem. Ele enlouqueceu. Não havia outra explicação, ele não batia bem. E embicou o módulo de pouso em direção à Lua! Quem sabe o que mais ele não fez? Quem sabe ele não matou a pobre Claudia? Precisava parar isso, precisava reverter o módulo. Era tarde demais? Não, ele tinha que tentar…

A bordo da Adam III, a tripulação viu o módulo São Jorge colidir com toda força contra a superfície da Lua, a apenas 4 km da estação lunar. Eles perderam dois tripulantes, inclusive a irmã do patrocinador da viagem, além de equipamento caríssimo. E a missão chegava ao fim sem que eles entendessem o que houve. Perderam a telemetria e não conseguiam entender o que Arthur balbuciava de forma frenética. Esta seria uma longa e triste viagem de volta.

No Controle de Terra, as pessoas pareciam tão ou mais confusas. A maioria olhava incrédula para seus instrumentos e telas. Apenas uns dois ou três tiveram coragem de olhar para Matheus Otsoa, que em silêncio, retirou uma caderneta do bolso e pareceu “ticar” alguma coisa nela antes de guardá-la e se retirar.

Postado por Tags: , , , , , , , Categorias: Arte & Cultura, Contos & Crônicas, Variedades
14413

Comentários do Facebook

Possuímos dois sistemas de comentários, você pode escolher o que mais lhe agrada. :-)


Comentários do Blog

2 Comentários

  1. Mario Jorge disse:

    Muito legal , Antônio.
    Estorias de lobisomem, vampiros , zumbis , dragoes etc…Gostando de ver!

  2. Cadê a versão em 140 caracteres?

Deixe uma resposta