Esse conto é continuação do Apocalipse Zumbi que escrevi no começo do ano, mas pode ser lido separadamente sem prejuízo de entendimento. O foco aqui são os vampiros.

Há cerca de um ano atrás a Humanidade perdeu a inocência. Os monstros deixaram de habitar a fantasia de cabeças férteis para invadirem ruas e lares, destruindo famílias, cidades e até mesmo pequenas nações.

Hordas de zumbis, de fazer inveja ao cineasta George Romero, fizeram quase tanto estrago como a fracassada tentativa da humanidade em resistir. Incompetência, debates  irrelevantes, guerras entre si… Foram várias as razões que atrasaram a resposta humana, permitindo que os mortos-vivos ameaçassem de extinção não só a nossa raça, mas diversas outras que co-habitam o nosso planeta. E foi uma dessas outras raças que reagiu, conseguindo virar o jogo.

Não foram golfinhos ou macacos, mas um grupo de aliados misteriosos que provocou a derrota da praga zumbi: vampiros. Sim, aqueles tradicionais monstros sanguessugas que não podem sair ao sol e não resistem a um suculento pescoço existem de verdade e vivem escondidos entre os humanos há muito tempo.

Bem sucedidos em sua ação contra os zumbis, eles reuniram-se para definir os próximos passos. Uma reunião que interessava diretamente à Humanidade, já que poderíamos nos tornar aliados, escravos ou prato principal.

vampiro dracula terror nosferatuCom o copo erguido, propondo um brinde, o Diretor Presidente Vladimir Santos, iniciou o debate em clima de união, mesmo tendo certeza que em breve as diferentes opiniões à mesa fariam surgir um clima de extrema hostilidade.

– Amigos, antes de qualquer coisa, eu gostaria de parabenizar as nossas Tropas de Elite, que valentemente arriscaram suas vidas e suas identidades ocultas no combate à Praga Zumbi. Rápida e eficientemente, eles conseguiram eliminar tantos desmortos que até mesmo o que sobrou dos exércitos humanos  deu conta de extingui-los. Mais um desastre ambiental foi evitado.

– Sim. – Concordou um nobre europeu de sotaque espanhol – Se eles não agissem rápido, logo poderíamos enfrentar um sério problema de falta de alimentos.

Copos foram erguidos enquanto alguns vampiros gargalhavam. Outros, no entanto, estavam sérios e não conseguiam ou não queriam aparentar estarem relaxados. Charles dos Anjos, um jovem que trajava roupas mais informais do que a ocasião exigia, foi o primeiro a apresentar suas críticas.

– Não tenho dúvidas quanto à rapidez, mas não colocaria minha mão na água benta a respeito da sua eficiência.

Todos se sentaram, e vestiram seus mais sérios semblantes. O debate real iria começar. A secretária do Diretor Presidente, anotava o que cada um falava, mas não podia emitir sua própria opinião. Quando tantos Vips estão reunidos assim, ela sabia ficar no seu lugar, procurando não chamar a atenção para si. Ela já vira muita discussão civilizada acabar em banho de sangue e chuva de estacas.

– O que quer dizer, Chuck? – Perguntou Vladimir.

– Bem, existem vários relatórios que indicam que humanos presenciaram de perto a ação das nossas tropas, testemunhando o que deveria ser “impossível”. Sem falar nas conversões não autorizadas: Alguns elementos indisciplinados nas tropas não resistiram e fizeram a festa no pescoço de vários humanos. Mas o que é pior: não apenas sugaram seu sangue, mas o fizeram de forma descuidada, transformando-os em vampiros também. Vampiros sem acompanhamento, educação ou orientação.

– E por que isso seria um problema? – Perguntou o nobre espanhol, chamado Don Callas. – A população humana foi bem reduzida. Eles não podem mais negar a existência de mortos-vivos. Eu acredito que finalmente é chegado o momento de sairmos das sombras. Vamos revelar nossa existência e entregar um ultimato: ou eles aceitam a convivência entre humanos e vampiros com um mínimo de civilização, ou simplesmente vamos continuar o trabalho dos zumbis! Mataremos mais alguns milhões deles, até que se entreguem à escravidão. E nessa batalha final, quanto mais vampiros tivermos em nossas fileiras, melhor. Orientados segundo o antigo livro do Comitê ou frescos e inexperientes.

– Como você acha que eles iriam aceitar a convivência? Nós precisamos matá-los para viver! – retrucou o jovem.

– E daí? Eles vivem matando a si mesmos! Em uma única guerra morrem mais humanos do que nós mataríamos em um ano. E o clamor público pela pena de morte aos seus marginais? Nós poderíamos propor nos alimentarmos apenas destes condenados, ou de soldados inimigos. Os índices de suicídios e de eutanásia também não podem ser ignorados. Mais refeição pro nosso povo. – Os líderes a sua volta começaram a discutir, alguns discordando outros apoiando, mas ele continuou a falar, sem se deixar interromper. – E não seria apenas como soldados ou carrascos que poderíamos trabalhar. Nossa resistência vital poderia ser aproveitada em trabalhos perigosos ou insalubres para os humanos. Grandes profundidades, áreas radioativas, são incontáveis as oportunidades. Eles teriam tanto a ganhar quanto nós.

– E o que nós teríamos a ganhar? – Perguntou um ancião careca, de orelhas pontudas e longas unhas. Alemão, Herr Wagen falava com dificuldade devido à sua avançada idade. – Nós sempre vivemos nas sombras, manipulando a Humanidade conforme nossos interesses. Por que mudar isso agora? Por que nos arriscarmos a revelar nossas identidades e nossas fraquezas?

Outro vampiro, o americano George Forest, apoiou o rumo que Don Callas apontou:

– Porque agora é o momento da mudança. Não temos nada o que temer. A força dos humanos sempre esteve em sua organização e nos seus números. Agora eles estão assustados, semi-destruídos… E não esqueça que nós os salvamos dos zumbis. Podemos aparecer como heróis. Ajudaremos na reconstrução. E tudo o que pedimos em troca é um pouco de sangue. E obediência.

O primeiro jovem retomou a palavra:

– Parece que há um tremendo senso de urgência para que não tenhamos tempo de pensar calmamente nas conseqüências da revelação. Mas não sei por que eu me espanto ao ver essa defesa contundente para mudarmos a nossa postura milenar. Afinal, foi um vampiro quem soltou o primeiro zumbi, não foi, Sr. Forest?

Agora sim, a reunião pegou fogo. Alguns vampiros se levantaram e começaram a gritar. Herr Wagen chegou a buscar uma estaca em seu paletó, mas suas mãos trêmulas deixaram-na cair no chão.

– O que está insinuando, moleque? – O americano exigiu satisfações.

Tirando um envelope pardo da maleta, mas que permaneceu fechado, o jovem Anjos disse que teria provas da existência de uma criação clandestina de zumbis, contrariando as normas do Comitê. E ela estaria localizada em terras pertencentes à esposa de George Forest. E mais, se antes dos ataques os satélites registraram a existência de cerca de 400 zumbis na propriedade, agora existiriam apenas meia dúzia deles por lá.

O tumulto que se seguiu foi interrompido pela voz dissonante da secretária. Espantados que a criaturinha tenha se manifestado, eles olharam em sua direção, que repetiu o que dissera:

-Lordes, senhores… um humano está aí fora, exigindo audiência.

– Um humano?! – Repetiu Vladimir, o C.E.O. – E exigindo alguma coisa?!

– Está vendo? – Aproveitou George Forest. – Se deixarmos, é isso que nos espera. Esses humanos são muito arrogantes. Deixe ele entrar e vamos trucidá-lo, bebendo seu sangue como brinde para os novos tempos.

– Ele disse que é Larry Page, criador do Google. – Completou a secretária, abrindo a porta para que ele entrasse.

Um silêncio se fez entre os presentes, que se sentaram e ficaram olhando o humano petulante entrar no ninho de vampiros como se fosse dono do lugar. Casualmente dedilhando um tablet, ele começou a falar, prendendo o olhar em cada um deles por alguns instantes, transmitindo uma força interna que chegou a intimidar alguns vampiros mais jovens.

– Por que a surpresa, senhores? Obviamente, vocês deveriam imaginar que eu sabia da sua existência já por algum tempo. Há poucas coisas neste mundo que podem ser mantidas em segredo de mim. Quando meu sócio, Sergey Brin, foi zumbificado na minha frente, em pleno escritório, eu dediquei meus maiores esforços à pesquisa do sobrenatural, monstros e assombrações em geral. Tenho estado de olho em vocês desde então. Gostaria de parabenizá-los pela solução contra o Apocalipse Zumbi. Parece óbvio que os mortos não incomodariam os mortos-vivos, mas eu não tinha pensado nisso. Os zumbis nem percebiam a presença dos seus esquadrões de extermínio. E mesmo que algum os mordesse por acaso, o sangue de vampiro é imune à mordida zumbi.

Apertando mais alguns botões, ele continuou:

– Na verdade, foram vocês que me deram uma idéia. Naquele momento, vocês estavam ajudando. Mas como fazer para enfrentá-los se vocês se virassem contra nós?

Se afastando da porta, abriu espaço para a entrada de uma criatura enorme cheia de cicatrizes, a carne morta reanimada costurada de forma esteticamente desagradável, porém funcional. Um verdadeiro monstro de Frankenstein, trajando roupas negras, com o logotipo do robozinho Android no peito. Um chip em seu cérebro atendia aos comandos do tablet e o fato dele estar clinicamente morto garantia imunidade à mordida dos vampiros. O espanhol Don Callas pulou em cima do monstro, tentando atacá-lo, mas foi destroçado na hora, sem emoção de qualquer tipo, nem raiva, piedade ou alívio. O monstro aplicou apenas a força e eficiência necessárias para eliminar seu alvo.

– Sua criatura é forte, humano, – levantou-se George Forest, sorrindo. – Mas é uma só. Tem idéia de quantos vampiros existem? Só essa diretoria reunida tem condições de acabar com seu monstrinho.

Larry também sorriu:

– Ao contrário do Doutor Frankenstein, que contava apenas com um velho laboratório e um ajudante corcunda, o Google tem diversos laboratórios espalhados pelo mundo, investindo em medicina, biotecnologia e até exploração espacial. Temos bilhões de dólares para gastar. Ninguém domina o MEU mundo além de mim!!

Ao toque de um botão, a sala foi inundada por dezenas de “Franks”, que marcharam em direção aos vampiros. Seguiram-se pedidos de clemência, ameaças, tentativas de suborno. Mas todas as vozes acabaram sendo engolidas pelos gritos agonizantes dos mortos-vivos, e pela risada do humano que ousou desafiar os monstros dos nossos pesadelos.

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3 Comentários

  1. eu quero ser um vampiro e beber o sangue das pessoas

  2. Mario Jorge disse:

    Se não brilha não é vampiro !
    Antonio cada vez mais doido com suas historias.

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