Afinal, a taxa de juros deve subir ou cair?

Independência do Banco Central?

banco central do brasilQuando o Banco Central baixou meio ponto percentual da taxa Selic, reduzindo-a de 12,5% para 12% ao ano, a mídia ecoou insistente advertência através de entrevistas e artigos de analistas econômicos: Alertava para o descontrole inflacionário e a perda da independência da instituição na defesa da política monetária, em decorrência de entrevistas anteriores da Presidente da República e do Ministro da Fazenda favoráveis a queda da taxa de juros.

Desde quando um Presidente da República ou um ministro da área econômica exerce pressão em órgãos de governo através de entrevistas públicas? Só ingênuos ou desinformados em matéria de economia podem acreditar nisto. Certamente quando desejarem fazê-lo – e possuem poderes para tanto – o farão a portas fechadas, com a maior discrição possível, que é a forma correta de se atuar na sensível área econômica onde qualquer opinião inadequadamente divulgada pode resultar em graves prejuízos e produzir efeitos totalmente contrários aos desejados.

Em outras palavras, o dia em que um Presidente da República ou um Ministro da Fazenda desejar pressionar o Banco Central para mudar a política monetária jamais usarão a mídia. Quem acreditava nisto era o bem intencionado Vice-Presidente José de Alencar e nunca deu certo. O setor financeiro, este sim, exerce pressão permanente sobre as autoridades monetárias através da famosa e desgastada Pesquisa Focus. Não sabemos por que o Banco Central ainda mantém este instrumento viciado de consulta.

Pesquisa Focus

Para o leitor para quem Pesquisa Focus nada quer dizer – e este deveria também ser o entendimento da autoridade monetária – trata-se da consulta que o Banco Central realiza junta às áreas técnicas principalmente das instituições financeiras para identificar a opinião média deste segmento sobre a evolução dos índices da inflação, cotação futura do dólar, taxa de juros e diversos outros índices.

Como a maioria dos pesquisados estão nas instituições financeiras dificilmente se lê previsões de queda das taxas de juros. Sendo as instituições financeiras os grandes aplicadores nos títulos do governo ouvi-los sobre projeções de taxas de juros seria o mesmo que os bancos efetuassem pesquisa perante seus devedores sobre que taxas de juros esperam no futuro para seus empréstimos.

Juros x Inflaçãotaxa de juros e inflação

O argumento colhido nesta pesquisa para manter a taxa Selic elevada é sempre o mesmo. Conter o risco inflacionário. Como se este fosse o único instrumento para conter a inflação. Conseqüentemente os índices de inflação e taxas de juros colhidos na pesquisa serão sempre crescentes mesmo quando este remédio não produz efeito na economia real do país, por que:

Primeiro: no Brasil, os juros comerciais praticados pelos bancos para empréstimos a empresas e pessoas físicas estão descolados da taxa Selic. Que impacto terá para conter o consumo uma taxa básica de 10, 12 ou 13% ao ano na Selic se o consumidor aceita pagar aos bancos taxas exorbitantes de mais de 100% ao ano e através do cartão de crédito taxas acima de 180%. A taxa básica de juros no Brasil não foi e nunca será instrumento de controle inflacionário enquanto as taxas de juros comerciais permanecerem acima de níveis que os próprios agiotas praticam. Se você conhece um agiota amigo melhor recorrer a ele que se financiar no cartão de crédito. É uma afirmação absurda, mas verdadeira.

Se a política econômica tiver como objetivo principal baixar a inflação através da queda do consumo ou demanda deve-se aplicar duas medidas de efeito imediato:
a) Aumentar o compulsório dos bancos, isto é, reduzir a quantidade de dinheiro em circulação;
b) Reduzir o prazo dos financiamentos e aumentar o percentual da poupança para compras a prazo.

Tais medidas produzirão um choque na demanda e a inflação cairá rapidamente para menos de 4% ao ano se a inflação for de demanda. Mas o leitor jamais verá as instituições financeiras defenderem tais medidas. Os argumentos técnicos serão sempre aumentar as taxas de juros e reduzir as despesas do governo, embora estes instrumentos sejam menos eficazes.

Naturalmente, as medidas sugeridas neste artigo resultariam em queda de rentabilidade das instituições financeiras e no crescimento do desemprego. Então, contra tais medidas, banqueiros e políticos se tornam parceiros, demonstrando que aceitam medidas para combater a inflação desde que não atinjam seus interesses imediatos.

Segundo: A velha economia ensina que estando aquecida a demanda, para esfriá-la as taxas de juros devem ser elevadas – isto em países em que os juros básicos e os juros de mercado estão próximos – e quando a economia se encontra em declínio ou retração, provocando desemprego, deve-se reduzir os juros para estimular os empresários a investir e a contratar.

Esta regra econômica está sendo revista pela realidade do século XXI. Os Estados Unidos estão com a economia paralisada desde a crise de 2008 resultante da especulação com ativos imobiliários e com derivativos financeiros tóxicos. A União Européia se encontra nas mesmas condições. As taxas de juros tanto nos Estados Unidos como na Europa estão próximas de zero. Então porque, passados já três anos, aquelas economias não deslancham?

Admirável Mundo Novo

Com a divulgação em tempo real de fatos e atos econômicos e políticos, a economia mundial passou a ser influenciada por um fator mais poderoso que a taxa de juros chamado credibilidade. Se governos, empresas e consumidores não tiverem a sua disposição a energia oriunda da confiança, da credibilidade, nenhuma taxa de juros produzirá os efeitos esperados. Taxas de juros baixas não produzirão crescimento (caso dos EUA e Europa) e taxas de juros elevadas não paralisarão o consumo (caso do Brasil).

Os economistas e analistas precisam acrescentar este novo conceito às suas análises para reduzirem as falhas de seus diagnósticos.

As acusações de fratura na independência do Banco Central em relação a declarações políticas são na realidade queixas porque a autoridade monetária agiu com independência em relação aos desejos do mercado financeiro. Pela menos desta vez o rabo não abanou o cachorro.

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Comentários do Blog

1 Comentário

  1. Carol disse:

    como vc disse, só os ingênuos.

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