Um pequeno conto policial

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A emboscada estava pronta. A prefeitura anunciou uma grande festa de aniversário coletiva, que seria celebrada no parque central da cidade. Era arriscado e muita coisa poderia dar errado, mas era a melhor chance que teriam de pegar o Matador de 13 de Agosto. Outra chance, somente no ano seguinte.

Depois de uma longa investigação, que incluiu a reabertura de casos encerrados e o cruzamento de vários dados em um super computador, finalmente o Detetive Keynes encontrou a ligação entre uma série de assassinatos aparentemente aleatórios. Um maníaco matava, todo ano, alguém que aniversariava naquele dia, 13 de agosto. Em alguns anos existiam mais de uma vítima, em outros apenas uma. Mas em comum duas coisas: os crimes sempre ocorreram nesta cidade, e sempre no mesmo dia. Quando uma das vítimas foi um ator famoso, o detetive achou que conseguiria os recursos necessários para sua investigação, mas eles só vieram no ano passado, quando os dois filhos do Procurador Geral, gêmeos, foram mortos.

Diante da impossibilidade de proteger todos os aniversariantes numa cidade grande como aquela, mesmo que apenas por 24 horas, seus superiores concordaram com o seu plano: criar uma tentação grande o suficiente de forma que o assassino não conseguisse resistir. Um grande evento que reunisse dezenas de alvos no mesmo lugar. Claro que se o pior acontecesse e o maníaco provocasse um massacre, sua carreira estava acabada. Pior, ele jamais conseguiria apagar a culpa que sentiria.

Keynes quase se arrependeu do seu plano, mas não havia muitas opções. Agora era hora de ser profissional e fazer o melhor que podia. Hoje seria o fim desses assassinatos, era uma promessa que fez a si mesmo.

Os olhos treinados do Detetive Keynes percorriam os prédios em volta. Pelo rádio, os atiradores de elite não reportavam nenhuma anormalidade. Os garis, vendedores de cachorro quente e os animadores eram todos agentes disfarçados. A entrada no parque era controlada, só entrava quem provava ser aniversariante e, no máximo, um acompanhante. Dessa forma, o assassino seria um dos aniversariantes. Estava preparado para a possibilidade do ataque vir a partir de um dos prédios que rodeava a praça ou das ruas adjacentes. Mas algo lhe dizia que o maníaco estava mesmo entre o público aniversariante.

O parque estava cheio, crianças corriam atrás de balões, idosos conversavam e até um cachorro pulava atrás de uma pequena bola de borracha. A primeira vista, o clima era de festa. No entanto, a tensão estava nos olhos dos agentes, em suas vozes. Como saberiam quem era o Matador ou como ele iria atacar?

Chocado, quase sem acreditar, Keynes viu o seu próprio filho brincando no parque, acompanhado da mãe. Lembrou que o aniversário da sua ex-esposa era nesses dias. Não, era exatamente nesse dia. Treze de agosto.

Ele divorciou-se quando seu filho ainda era um bebê, e sua ex-mulher era exatamente o que se espera de uma “ex” em uma separação litigiosa. Praticamente não conversavam e, devido ao seu trabalho, nunca conseguiu estar presente nas festas dela mesmo quando eram casados. Ela diria que não lembrar que ela aniversariava no mesmo dia em que as vítimas de um assassino serial, era o tipo de coisa que levou ao fim do casamento. Provavelmente ela estaria certa.

Tentou dizer a si mesmo que não era sua culpa: mesmo que não se esquecesse do aniversário dela, não poderia dizer nada sobre a emboscada. Era uma missão secreta e o sigilo não poderia ser comprometido por nada. Se outras famílias estavam correndo risco com o seu plano, por que a dele seria diferente?

Regulamentos e culpas a parte, agora estava mais preocupado com seu filho. O pimpolho brincava num balanço, junto da mãe e de outras crianças. O som das risadas infantis era gostoso, mas não podia relaxar. Sua mão pousou sobre a pistola embaixo da jaqueta. Precisava ficar pronto para ação. O assassino só se revelaria na hora do atentado, então não poderia perder um segundo, sob pena de perder o filho.

Alguns especialistas pensavam que o assassino apareceria na hora de cantar o Parabéns, usando um sobretudo escuro e armado até os dentes. Mas Keynes não acreditava nisso. O seu perfil psicológico não indicava esse tipo de ataque, mais compatível com suicidas. Esse monstro queria atenção. Ao longo do tempo, suas vítimas passaram de completos desconhecidos para pessoas famosas ou proeminentes. Ele queria matar, odiava quem aniversariava nesse dia, mas não queria morrer.

Keynes concordava com a hora mais provável do ataque, porém acreditava que um atentado a bomba fazia mais o estilo desse louco. Ele desceu pelo acesso de manutenção, indo até a saleta cujo teto serviria de base para o palco do “Parabéns”. Dali subiria a plataforma que revelaria um enorme bolo com treze velas, exatamente às 13 horas. Faltavam quinze minutos.

Sacou a arma quando viu dois palhaços mortos, os olhos esbugalhados e o rosto tão roxo que nem a maquiagem conseguia disfarçar. Seus rostos estavam contorcidos numa expressão de dor, e se antes Keynes não tinha medo de palhaços, essa visão criou um trauma que o faria fugir até de palhaço de televisão. Caso ele sobrevivesse, é claro.

Foi quando viu o sujeito. Estava de costas, mas deu pra ver que era homem, alto, bem magro, e estava trocando as velas do bolo. Foi assim que ele matou os agentes disfarçados de palhaço e assim que pretendia realizar seu massacre: um atentado químico. As velas deveriam liberar algum tipo de fumaça mortal. Na verdade, Keynes deveria estar inalando o resíduo dessa fumaça, pois seus olhos começaram a arder e seu pulmão a queimar. Tossiu, mas manteve a mira no suspeito. Este se virou rápido, assustado. Usava uma máscara anti-gases, de forma que o policial não podia ver seu rosto.

“Polícia, largue as velas, mãos para cima, deite-se no chão”, gritou as frases de comando com o tom de voz para o qual foi treinado. O que treinamento nenhum o preparou foi para o que veio a seguir. O suspeito tirou a máscara e quando viu seu rosto, seus olhos, reconheceu na hora.

“Tom? É você?” – perguntou, já sabendo a resposta. Era Anthony Days, ou “Palito de Girafa”, como os garotos o chamavam na escola. O Matador de 13 de Agosto era o seu melhor amigo do tempo escolar. Keynes o defendeu quando cinco alunos mais velhos o tinham cercado e estavam batendo nele. Quando viraram amigos, o bullying contra ele diminuiu, embora não tenha parado. Tom sonhava em um dia ser tratado como um igual, ser aceito e até admirado pelos colegas, mas isso nunca aconteceu.

“Por que, Tom? Diga-me pelo menos isso.”

Tom explicou o que já sabia, como ele sofreu na escola, como os outros roubavam seus lanches, seus trabalhos escolares, suas garotas e até o que lhe era mais precioso. A única coisa que realmente era só sua. “Meu aniversário, Keynes. Até o meu aniversário foi roubado”.

Vendo que o detetive não entendeu, ele continuou: “No último ano, quando eu preparei a melhor festa de aniversário de todos os tempos, gastei todas as minhas economias, contratei músicos de verdade e convidei todo mundo da escola, o que aconteceu? Ninguém veio. Quer dizer, ninguém a não ser você e minha velha mãe. Todos foram para a festa do Alex Salt. O cara entrou no último ano e todos foram a festa dele, só porque ele era o capitão do time e trouxe o campeonato que nossa escola tanto perseguiu por décadas. Ele não era da vizinhança, não era da escola de verdade, não pertencia… e no entanto, o excluído fui eu, que sempre estive ao lado de todos, convivi com todos. No ano seguinte, minha mãe pegou uma pneumonia e eu não tinha mais dinheiro para o tratamento. Torrei tudo um ano antes numa festa que ninguém veio. Uma festa roubada por Alex.”

Balançando a cabeça, vencendo os efeitos do gás, que já se dissipava, Keynes mostrou solidariedade, mas lembrou que as outras pessoas eram inocentes. Alex não estava ali, e ninguém merecia morrer.

“Eles parecem inocentes, sim, meu velho amigo, mas não são. Assim como Alex, eles tentam roubar a única coisa que era realmente minha, o meu dia. E, assim como o capitão do nosso time, são responsáveis pela morte da minha mãe.”

O homem estava louco. Mas claramente, o fato de ser o único que ficou do seu lado durante o bullying escolar ainda dava ao Detetive Keynes algum crédito junto à Tom. Assim, tentou apelar a sua emoção.

“Tom, meu filho está lá em cima. A mãe dele, minha ex, aniversaria hoje e o trouxe para a festa.”

“Ainda dá tempo de você retirá-lo, amigo. Embora, conhecendo seu gosto para mulheres, eu deixaria a ex-esposa aí mesmo”. Falando isso, Tom recolocou a máscara, virou-se e começou a acender as velas. Faltavam menos de 5 minutos para as 13 horas.

“Não faça isso, Tom, eu lhe imploro”. O Matador ignorou seu apelo e acendeu a penúltima vela. O Matador. Não Tom ou Palito de Girafa, mas o Matador de 13 de Agosto. E Keynes sabia o que tinha que fazer. E atirou.

O detetive acertou no mecanismo que acionava a plataforma do bolo, impedindo-o de ser erguido até ao palco. Agora o bolo e sua fumaça venenosa estavam presos naquela salinha, onde não poderiam fazer mal a ninguém. A não ser a ele mesmo.

Seus olhos ficaram vermelhos bem mais rápido que da outra vez. Não estava enfrentando o resquício disperso da fumaça de uma vela, mas 13 velas recém acesas. Caiu de joelhos, tossindo, e largou a arma. As lágrimas tornavam difícil enxergar e pensou apenas em seu filho, brincando lá em cima. Talvez ficasse decepcionado que o bolo não apareceu, mas pelo menos viveria. Ele e as dezenas de outras pessoas inocentes ganhariam mais um ano. Ano que vem, outra pessoa teria que parar Tom.

De repente, seus olhos pararam de queimar, assim como seu pulmão. Ainda estava sofrendo horrores, mas a dor parou de crescer e até diminuiu um pouco. Sentiu a respiração abafada e lutou para abrir os olhos. Viu Tom ao seu lado. Ajoelhado a princípio, mas logo deitado no chão, como ele. Seu velho amigo retirou a própria máscara e colocou nele. Não o Matador, não o maníaco serial, mas seu velho amigo do tempo de escola.

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Comentários do Blog

2 Comentários

  1. Mario Jorge disse:

    Eu gosto dos seus pequenos contos, sempre criativos. Quando você vai começar a escrever um livro? Ainda dá tempo de você ser o proximo Edgar Allan Poe… É surpreendente como você sempre termina por colocar algum elemento de terror no meio. São vampiros, zumbis, lobisomens, dragoes, fantasmas e agora um assassino serial.
    Bom, pelo menos tem um final fofo. Dentro do possível.

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