O que é pior, ouvir funk ou espalhar preconceitos?

Com a difusão da internet algumas idéias se espalham como fogo, e como sempre que somos bombardeados com um conceito simples e fácil de aceitar, acabamos deixando aquela idéia penetrar na nossa mente como se ela fosse óbvia e verdadeira. Ir contra essa “unanimidade” seria burrice. Profissionais de marketing, seja comercial ou político, trabalham com esse efeito o tempo todo.

Um movimento que se vê bastante é aquele que reclama de pessoas que ouvem funk no ônibus sem fones de ouvido. Virou chique fazer essa reclamação, sem pensar nos preconceitos que ela embute, tanto musical quanto social.

preconceito contra funk

“Ah, mas ninguém ouve outra música sem fone, só os funkeiros.”

Discutível. Ando de ônibus há uns 30 anos e sempre teve quem desrespeitasse as normas da boa convivência: pessoas que não se levantam para idosos, crianças e outros necessitados, pessoas que deixam suas mochilas e sacolas batendo em todo mundo, amigos que sentam em banco separado e ficam conversando alto como se o ônibus fosse um salão de festas e… pessoas ouvindo rádio alto. Antes mesmo da invenção do chamado funk carioca. Era menos que hoje? Óbvio. Antigamente não existia a facilidade a potência dos aparelhos de hoje: qualquer celular dá de 10 nos sons de 20 anos atrás.

Portanto, a educação em si, ou a falta dela, é que é o verdadeiro problema. Lute para que as pessoas sejam mais educadas em vez de pregar o paredão pra fãs de um estilo musical. Eu não gostaria que escutassem Lady Gaga ou Mozart ou Mc Funkão sem fones de ouvido. Gostaria que as pessoas não entrassem no elevador com a mochila nas costas. E que não furassem fila, não falassem palavrão, não dessem informações erradas quando perguntamos, etc. Tem certeza que você já não sentou sozinho em um banco duplo, mesmo vendo duas pessoas que estavam juntas sendo obrigadas a sentar separadas? Então, pecador, cuidado ao atirar pedras.

“Tá tudo lindo, mas funk é ruim pra caramba!”

Confesso que não é um tipo de música que eu fico curtindo horas, enquanto leio um livro ou tomo uma cervejinha com meus amigos. Também não faço o mesmo com Fado, Trance ou Chorinho. Isso quer dizer que esses estilos são a mais baixa forma de manifestação humana? Não, quer dizer que existe diversidade no mundo. Só porque EU não gosto de algo, não quer dizer que não presta. E não é porque eu e meus amigos não gostamos, que confirmaria a idéia de que aquilo é lixo. Existe algo que se chama “público-alvo”. Já pensou que você NÃO é o público alvo do funk? Por que todos tem que gostar da mesma coisa, se as pessoas e os seus grupos sociais são diferentes? O que nós preferimos não é superior ao que outros preferem, é apenas isso: a nossa preferência.

Outra coisa: além de público alvo, existe momento pra tudo. Quem namora ao som de Twist and Shout? E quem pula na boate ao som de Love Me Tender?

“Mas funk não tem qualidade, é repetitivo e indecente.”

Novamente, isso demonstra preconceito e falta de conhecimento. Dizer que um ritmo musical não tem qualidade ou que suas músicas são todas iguais não é uma crítica inventada pra falar mal do funk. Nos anos 50, o pessoal mais velho usou contra aquela loucura que surgia, o rock’n’roll. Elvis era tão indecente que só podiam filmá-lo da cintura pra cima. Nos anos 60, os Beatles e seus contemporâneos também ouviram críticas que iam da sua música aos seus cortes de cabelos, roupas e, mais tarde, apologia às drogas.

Pra algumas pessoas, qualidade mesmo quem tem é a música clássica ou jazz. Difícil dizer que esses estilos são pobres e repetitivos – ou não? A maioria das pessoas prefere bater na cabeça com um martelo do que ouvir 2 horas dessas músicas. Só não dizem isso abertamente porque pareceriam ignorantes. A imagem oposta que supostamente  transmitiriam ao criticar o funk.

E quanto à indecência, se pensarmos bem, o funk não está sozinho nessa. Esqueceram do forró ou do axé? Mesmo o rock já teve seus momentos que foi até censurado por sua apologia ao sexo. E o pop então? Madonna só faz letras santinhas? Tem algumas músicas pop que são de corar até mesmo as profissionais da noite.

preconceito música

“Se você defende tanto o funk, porque o título é Apocalipse Funk?”

Amigo, se depois de ler tudo que escrevi você está achando que eu defendo o funk pelo funk, leia tudo de novo. Eu não gosto de funk, o que defendo é a liberdade das pessoas de ouvirem o que elas quiserem, de fazerem o que gostam, desde que não prejudiquem os outros. E de que ninguém, seja eu, você ou um crítico musical contemporâneo, tem o direito de julgar esse ou aquele estilo de música inferior ou superior.

O que pode nos trazer mais perto do Apocalipse não é escutar funk, é cultivar e disseminar preconceitos. Idiotas sem nada na cabeça sempre existirão, existem nazistas até hoje. O problema é quando a intolerância não vem só dessa minoria, mas de um grande grupo de pessoas esclarecidas e inteligentes. O mal não vem de vilões clássicos, mas de pessoas como nós. E se não acordamos pra isso, os maias terão razão (ainda que errem a data).

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