Madonna e três outros sobreviventes – um bailarino, um guitarrista e um sushiman – estavam trancados no camarim enquanto o apocalipse zumbi assolava o Reveillon de Copacabana. Pela internet, eles tomavam conhecimento dos acontecimentos.

Os portais de notícias estavam fora do ar, provavelmente congestionados. Antes que alguém sugerisse qualquer coisa, Madonna já tinha aberto o YouTube e procurava videos feitos pela multidão.

A situação no interior do bairro não era melhor do que na praia. Ônibus e carros aceleravam, atropelando pessoas e não-pessoas. No entanto, nos pontos de saída do bairro, eram impedidos de passar. O bloqueio que durava até as duas da madrugada já existia há alguns anos e, desde o ano em que alguns carros foram flagrados ignorando a proibição de saída, a pista ficava bloqueada por viaturas policiais. Um dos vídeos mostrou um ônibus avançando a toda velocidade contra os carros de polícia. Sem saber o que estava ocorrendo, os policiais atiraram, matando o motorista. O ônibus, sem controle, tombou e acertou um poste. O engarrafamento resultante terminou por tornar a fuga motorizada impossível. Em pouco tempo, as criaturas alcançaram os motoristas presos no congestionamento.

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Um outro vídeo mostrava a multidão invadindo os prédios. Aqueles protegidos por antigas barras de ferro resistiram. Mas os muitos que trocaram por alumínio ou vidro logo se viram ocupados pela turba. Logo depois das pessoas, com as grades derrubadas, entravam as criaturas. Da janela alguns moradores atiravam objetos pesados ou líquidos ferventes, replicando as táticas de defesa medievais. Quando essa resistência parava era comum observar depois de alguns minutos pessoas caindo ou pulando das janelas.

Na praia, um dos vídeos mostrava a multidão correndo, esmagando quem ou o que ficasse no caminho. A força desse “estouro de manada” conseguiu matar muitas criaturas. No entanto, estas pareciam brotar dentre os corpos caídos. Um posto salva-vidas teve seu portão derrubado, mas os policiais do Bope, armados de fuzis, resistiram bravamente. Entretanto, quando até a munição das pistolas estava acabando, os policiais formaram duas organizadas fileiras, uma de frente pra outra. Segundos antes de serem alcançados pelos monstros, dispararam uns contra os outros, como dois pelotões suicidas de fuzilamento.

Clicaram então em um dos vídeos mais vistos, intitulado “Como o inferno começou – Rio de Janeiro”. Com legendas mal traduzidas em inglês, uma senhora dizia em entrevista que a culpa toda era do genro dela. Enquanto segurava um terço e beijava uma cruz, ela explicou que o marido de sua filha era sargento do exército e serviu nas forças de paz da ONU no Haiti. O infeliz seria macumbeiro. Ela já tinha tentado de tudo para ele parar, já que essas coisas não são de Jesus. Mas o genro já estava muito avançado nessas heresias e se recusava a ver o pastor. Descobriu que ele frequentava os rituais vudu na ilha do caribe. Quando voltou, em plena noite de 31 de dezembro, tentou misturar os rituais de magia negra que testemunhou com as umbandas ou candomblés que ele já praticava. Depois de um transe e convulsões, que ninguém parecia levar muito a sério, ele se virou pro lado e mordeu o pescoço de alguém, quase arrancando-o a dentadas. Um preto velho gritou algo como “É a Não-Vida, ele despertou os não-viventes!” antes de ser mordido também. Ela disse então que naquele momento agarrou a filha e saiu correndo, sem ver mais nada. Não havia dúvidas pra ela que foi assim que tudo havia começado, embora ela não soubesse explicar como os “não-viventes” se multiplicaram tão rápido, afetando quem estava muito bem há poucos instantes.

A tensão dentro do camarim aumentava a cada vídeo assistido. Madonna não sabia se a versão da sogra do militar era verdadeira ou não, e no momento isso não fazia a menor diferença. O importante era conseguirem sair dali. As batidas nas paredes e na porta eram mais escassas, porém não o suficiente para que arriscassem abrir a porta.

O sushiman lembrou-se que talvez os portais de notícias estrangeiros ainda estivessem no ar, e poderiam ter informações melhores. Ele ainda acreditava que só entendendo o inimigo conseguiram sobreviver. Deu alguns endereços para o bailarino digitar, enquanto ele e a Madonna começaram a inventariar suas armas. O guitarrista juntava comida e bebida.

Fim da terceira parte. Aqui não vimos muito da Madonna, mas o caos criado pelo pânico e pelos ataques zumbis já alcança porporções catastróficas. Na parte IV, eles precisarão definir se continuam entrincheirados no camarim ou se elaboram um o plano de fuga.

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9 Comentários

  1. Mario Jorge disse:

    Ficar patrulhando a orla no reveillon não é coisa da PM?

    • Em grande parte, mas um reveillon com duas milhões de pessoas, com show da mega-pop star Madonna, seria irresponsável não colocar ao menos um grupo de soldados do BOPE ali. Pode reparar que costuma ter uns grupos de elite da Policia Civil também.
      Afinal, se algo sair errado no reveillon, imagina na Copa!

  2. Mario Jorge disse:

    Eles possuem helicopteros, caveirões, armas de fogo e estratégia. Do grego strateegia, do latim strategi, do fracês stratégie… O mínimo que se espera é que eles sobrevivam ao apocalipse zumbi hehe
    Uma forma seria se enfiando em um caveirão ou fugindo da confusão de helicóptero.
    Mas, no fim das contas, quem sobreviveu? O sushiman é claro! O pessoal do Bope morre, porém o sushiman continua lá firme e forte.

    • É possível que mais tarde o BOPE, o exército, os fuzileiros americanos possam invadir a praia de copacabana. Mas lembre-se que isso está ocorrendo muito rápido. Durante os fogos não fica nenhum caveirão na orla. E a maioria das pessoas está festejando o reveillon, se embebedando numa festa. Uns poucos ficam de plantão, trabalhando.

  3. Mario Jorge disse:

    Eu sei que os policiais do BOPE já apareceram, mas esses aí não eram lá muito bons…
    Aposto que o sushiman faria melhor. rsrss

    • Antonio Carneiro disse:

      Sim, o sushiman faria melhor!! Mas esses caveiras eram altamente treinados, mas quem pode contra uma turba de milhoes de pessoas em pânico fugindo de milhares de zumbis?

  4. Mario Jorge disse:

    Dessa vez vocÊ nem ousou falar nada sobre quando vai sair a parte 4. hehe
    E, o melhor continua sendo o sushiman, ele não faz praticamente nada, porém é impagável… Um policial do BOPE não seria mau nesse grupo aí.

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