TV transmite ao vivo a CPI do Senado que investiga a lealdade do maior super-herói da Terra, Moon Man.

– Amigos telespectadores, dentro de instantes retornaremos ao vivo com a Audiência do Século. Antes, vamos ouvir o nosso convidado, o jornalista político George Jameson, que vai nos explicar a importância deste momento.
– De fato é um momento histórico, Lexia… Posso chamá-la assim?
– Claro, Sr. Jameson.
– Me chame de George! Mas continuando, Lexia, a verdade é que esta não é a primeira vez que um super-herói presta depoimento no Comitê do Senado. Mas isso nunca aconteceu com um super de primeiro escalão, alguém com poderes excepcionais.
– Acho que todos devem se lembrar quando o Homem-Batata foi chamado a depor. Qual outro herói enfrentou essa situação?
– Além do Homem-Batata, foram chamados a Pretty Girl e o Criatura Doida. Você não deve se lembrar, pois aconteceu há muito tempo, e você sendo tão jovem e bela provavelmente não acompanhava ainda essas notícias. Além disso, as acusações eram leves, coisas banais como destruição de propriedade privada e perturbação da ordem pública.
– Bem diferente agora, Sr. Jameson – digo, George. As acusações contra Moon Man são seríssimas. Para quem ligou agora, estamos transmitindo o Inquérito do Senado em que o maior herói da Terra é acusado de traição e conspiração contra o governo e o povo dos EUA.
– Exato. O futuro dos assim chamados Super-Heróis, e até mesmo o futuro da nossa nação está em jogo aqui, e …
– Um momento, George! Odeio ter que interrompê-lo, mas depois da primeira rodada de debate entre os políticos, finalmente estão trazendo o Moon Man.

julgamento super heroi

* * *

– George, vamos aproveitar o recesso para comentar o que acabamos de ver?
– Certamente, Lexia. Acredito que a audiência está indo para um rumo surpreendente para a maioria do público.
– As coisas estão se complicando para o Moon Man, não?
– De fato. Ele não conseguiu explicar direito o que estava fazendo tão perto da fronteira da Coréia do Norte – do outro lado do mundo – justamente quando as bombas de Clevand explodiram.
– Você acredita que a história sobre ele estar em alerta contra um possível disparo de mísseis norte-coreanos…
– É muito conveniente, não? Imagina a situação: nós dois jantando em um lugar legal, como o Le Chevalier, por exemplo, vinhozinho, conversa agradável, e de repente, BOOM, explode metade do quarteirão. Não fique espantada, Lexia, aposto que uma coisa dessas arruinaria a noite de qualquer um!
– Imagino.
– Enquanto nós estaríamos achando que existia mais segurança por estarmos na cidade adotiva do Moon Man, nosso “guardião e protetor” se encontrava mais próximo de uma nação inimiga do que do povo que o acolheu de braços abertos. E por que?? Ora, todos sabemos que o governo da Coréia do Norte adora esbravejar e ameaçar, mas não morde nunca. Enquanto isso, os terroristas que realmente derramam sangue americano ficam livres pra agir.
– Concordo que parece ter sido um erro de estratégia dele, mas daí a afirmar que ele fazia parte da rede de terroristas não é um passo muito largo?
– Não é ele quem sempre trombeteou a capacidade de pular edifícios inteiros com único passo, minha linda? De qualquer forma, não estou afirmando que ele participou ativamente dos planos terroristas, mas penso que ficou óbvio que eles só agiram por ter certeza de que o Moon Man estava longe e nunca mexeu uma palha para combater o terror em solo norte-americano.
– É um ponto válido, George. Nunca tinha pensado por esse ângulo…
– Nem você e nem a maioria das pessoas. O marketing em cima do Moon Man nos vendeu a imagem do patriota acima de qualquer suspeita. Mas quem leu meu livro sabe dos detalhes nada convencionais que envolveram a concessão de cidadania para ele. Quero dizer, quando se trata do Moon Man, nossa cabeça deve sair do convencional e esperar o inesperado.
– Sem dúvidas, George. Acho que você está certo quanto a isso. Veja, o recesso acabou, eles estão retomando seus assentos.

* * *

– Uau, George, depois dessa acho que até eu preciso de um drink!
– Eu cubro sua oferta e ainda convido para um segundo drink, desde que não seja no Le Chevalier, hehehe!
– Rsrsrs, sem bombas reais ou hipotéticas pra mim, por favor. Olha, preciso pedir desculpas ao meu diretor e ao público por ter perdido a voz, mas eu confesso que fiquei muito abalada pelos últimos eventos. Imagino o que o Senador Bull deve ter sentido quando viu o Moon Man derretendo a barreira de vidro à prova de bala que o cercava e voando em sua direção, olhos vermelhos de raiva.
– Uma explosão como essa não ajuda em nada à causa do Super. Pelo contrário, depois disso tiveram que prende-lo com algemas de Greenite, e psicologicamente o público passa a enxergá-lo mais como um elemento perigoso do que um herói injustiçado.
– Mas, George, você não acha que o Senador Bull o provocou além da conta?
– Com certeza, Lexi. Você está certa. E isso é o que esperamos de um senador como o Bull. Mas o que esperamos de um ser super poderoso, acima dos pobres mortais, defensor da justiça, lei e ordem é um pouco de auto-controle. Se eu ando armado (coisa que faço), eu não saio disparando tiros pro alto ou apontando a arma pro primeiro que xingar minha mãe ou fizer perguntas inconvenientes. É preciso muita responsabilidade quando se tem poder. E saber respeitar a hierarquia da sociedade.
– Sim, sim, é verdade. Mas tirando esse arroubo passional, como você diria que está a situação do Moon Man?
– Digamos que se eu fosse ele, estaria treinando a pegar sabonete no chuveiro sem me abaixar.
– Você acha que ele pode ser preso?
– Por que não? Neste país, todo mundo está sujeito à prisão se descumprir as leis e as ordens das autoridades constituídas. Quando ele se recusou a dizer sua identidade secreta ou a abrir as portas do seu esconderijo para uma inspeção do governo, tem que estar ciente das consequências.
– Bem, conseguiram restaurar a ordem na sala. A CPI vai retomar os trabalhos.

* * *
– Bem, George, acho que agora o povo americano pode se sentir mais seguro, não?
– De fato, Lexia. O Senado foi ousado ao convocar Moon Man para depor e mais ousado ainda ao não se deixar intimidar por sua fama ou pelo marketing de apelo popular. Perguntou, ouviu e diante do exposto não teve outra escolha a não ser decidir pelo seu envio o mais rápido possível para Guantánamo. A América continuará sendo protegida por quem nunca precisamos duvidar: os policiais, bombeiros e militares nascidos e criados nos EUA, que diariamente sacrificam suas vidas por nós.
– E os outros super-heróis?
– Bem, o recado está dado. Aqueles que quiserem agir dentro da lei e no melhor interesse do povo americano serão bem vindos. Agradecemos sua ajuda. Mas os que agirem por conta própria, de forma escusa, relaxada ou suspeita, sabem agora que não somos crianças indefesas e temos formas de lidar com qualquer um que se apresente como uma ameaça.
– Bem, estamos encerrando essa transmissão, e preciso agradecer ao público que nos honrou com uma audiência superior ao do Superbowl. Mais uma vez, foi bom contar com sua presença, George. Em um fato histórico e controverso como esse, é ótimo ter por perto alguém que sabe interpretar além das aparências. Espero poder contar com sua presença na transmissão do lançamento do foguete Liberty One, próximo sábado?
– Foi um prazer pra mim também, Lexi. Claro que aceitarei o seu convite, mas só se você aceitar o meu convite para participar da noite de autógrafos do meu novo livro: “Heróis, Uma Super Ilusão”.
– Não sendo no Le Chevalier, eu topo, George!

vinho e sorrisos

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