Policial militar x manifestante de rua – Uma história comum que toma outro rumo quando eles entram no Theatro Municipal.

poicia x manifestante

Afonso poderia estar se divertindo, bebendo com os amigos, pegando umas gatas no baile funk, como gostava de fazer nas sexta-feiras. Em vez disso, estava usando seu uniforme completo, praticamente uma armadura, quente e desconfortável. Os olhos ardiam um pouco com o gás lacrimogêneo, a viseira do capacete não oferecia proteção à fumaça, mas ele estava acostumado. Não só pelo treinamento intensivo, mas porque os confrontos de rua entraram em seu terceiro mês. Como policial do Batalhão de Choque, respirar gás e levar pedrada virou uma rotina tão comum quanto baixar o cacete e atirar bala de borracha nos baderneiros. Mas não podia reclamar. Pior era quando fazia plantão apenas pra ficar trancado no quartel, treinando. Agora, pelo menos, ele estava sendo útil à sociedade, ajudando a manter as ruas e o patrimônio a salvo desses bandidos aproveitadores.

Afonso viu o moleque a alguns metros de distância. Devia ter uns 18 anos, mas era difícil ter certeza, já que ele usava uma máscara daquele filme, como a maioria das pessoas nas manifestações. Ele atirou uma pedra em um poste antigo da Cinelândia, quebrando a lâmpada. Vândalo imbecil, pensou, mas esse não escapa. O policial atirou em direção ao moleque, mas errou. Ele olhou diretamente pro Afonso. Foram apenas alguns segundos se encarando – máscara x capacete de choque – mas pareceu muito mais. Foi um olhar de desafio. Um desafio que não foi recusado.

Afonso correu em sua direção, disposto a ensinar respeito ao moleque. Ou pelo menos arrebentar com a fuça dele. Se conseguir pegá-lo, vai ser ele quem vai pagar pelos seus olhos ardendo, por ele estar ali na rua em vez de estar no bailão, bebendo e trepando.

O garoto correu, buscando abrigo dentro do Teatro Municipal. Um funcionário tentou barrar Afonso, xingando e ameaçando, o que era engraçado, já que ele não fez as mesmas ameaças ao baderneiro. Com uma forte coronhada, este obstáculo foi rapidamente superado e a perseguição continuou.

Essa interrupção deu tempo pro baderneiro se esconder. Eram muitas portas e passagens, o policial não viu em que direção o garoto correu. Mas não ia desistir, resolveu procurá-lo em cada canto do Teatro. Quando achasse, ia arrastá-lo pra fora e fazer o que ele fazia melhor.

Com sua armadura, percorrendo aquele espaço bonito e frágil, Afonso sentiu-se como um rinoceronte em uma loja de cristais. Nunca tinha entrado no Municipal, embora tivesse protegido o teatro pelo lado de fora várias vezes. Escutava uma música. Atraído pela melodia, inédita aos seus ouvidos, Afonso deixou-se guiar por ela.

Quando ele entrou no salão principal, em plena apresentação do balé Quebra-Nozes, é como se algo também tivesse entrado dentro dele. Em choque, permaneceu parado. Vislumbrou o palco, com os dançarinos paramentados em um luxo só visto no carnaval. O som, no entanto, era o que o hipnotizou. Que música era aquela? Que ritmo era esse?

Afonso levantou a viseira do capacete e deixou a arte penetrar em seu corpo, preencher sua alma. Sentia-se completo, maravilhado com a música, a dança, o cenário. Devia ser isso que os crentes sentiam quando iam ao culto.

Ele não sabia descrever em palavras exatamente o que sentia, mas queria que aquele momento durasse pra sempre. Olhou pro público, todos muito elegantes em respeito ao espetáculo. Olhou para o seu traje, desconfortável e feio. Sentiu-se mal. Até mesmo um faxineiro, com seu modesto, mas arrumadinho macacão parecia pertencer mais àquele cenário do que ele.

De repente, ele viu outra coisa. Um jovem se sobressaía, trajando jeans velho e camiseta. Cabelo mal arrumado, parecia esconder algo sob a camiseta. Viu um elástico de máscara escapando da camiseta. Era ele, o vândalo. Seus olhares se cruzaram novamente. Agora, porém, sem a máscara ou a viseira do capacete como filtro. Num lugar como esse, sua presença era mais que uma ameaça, era um insulto.

Afonso saiu do transe e seu velho treinamento tomou conta. Guardou a arma e marchou até o garoto com o cassetete em punho. Agarrou-o pela camiseta com tamanha força que a máscara do tal filme caiu no chão. Com sua bota, o policial esmagou-a em único pisão. O som ecoou pelo salão. As pessoas elegantes olharam assustadas. Ele estava acostumado com isso. Essa era sua vida.

Percebeu que o balé não foi interrompido, a violência que estava prestes a acontecer parecia não ameaçar os artistas no palco, como se a sua arte fosse um escudo invisível ou como se eles estivessem em um mundo à parte da realidade, intocável e inatingível. Com isso, Afonso não estava acostumado. Mas agora não tinha mais tempo para essas coisas. Tinha um trabalho a fazer. Um trabalho de Homem, que enche seu pai de orgulho e deixa as piriguetes doidas.

O baderneiro gritou, esperneou, mas Afonso não o soltou. Deu uns bons golpes de cassetete, para ver se ele se calava. Um faxineiro o chamou, disse algo sobre não fazer isso ali. “Ao menos leve o cara pros bastidores, eu tenho a chave. Aqui não é lugar pra isso”, disse ele.

Nisso o faxineiro tinha razão. Afonso viu pelo crachá que seu nome era Severino. Pediu pra que indicasse o caminho. Foram por um corredor de serviço, não tão bonito quanto os principais. O policial se sentia mais a vontade assim. Aquele luxo o encantou, mas o deixou desconfortável.

Aproveitou pra dar mais umas bordoadas no moleque, que a essa altura chorava. Ora prometia nunca mais repetir seus atos, ora ameaçava chamar a imprensa, a OAB, seu pai. A música voltou a ficar bem alta, aquela música que amou. Os gemidos do baderneiro atrapalhavam, ele queria escutar um pouco mais, e isso deixou o policial ainda mais irritado.

Severino, que vinha guiando a dupla, parou em frente a duas portas. Virou-se para Afonso e disse: “A porta em frente leva para fora do Teatro Municipal. Lá estão seus colegas policiais, os manifestantes, a fumaça. A porta da direita leva pros bastidores, uma entrada lateral do palco onde você pode ver de perto os bailarinos e a orquestra, uma visão privilegiada que poucos tem acesso. Eu vi sua expressão quando entrou no salão principal. Não era diferente da minha quando eu vi minha primeira apresentação. Eu tenho a chave das duas portas, mas é você que me vai dizer qual eu devo abrir.”

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Comentários do Blog

2 Comentários

  1. Mario Jorge disse:

    Se saiu bastante bem em sua primeira estória do blog que não envolve vampiros, zumbis, maníacos ou fantasmas…
    Daria um curta legal, desses dirigidos por jovens cineastas cults.

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