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chefe dinossauro

   Doutor Augusto entrou em seu novo escritório. Com seus 55 anos, ele não se considerava um dinossauro, mas admitia que era um homem tradicional, de hábitos e gostos que muitos podem chamar de antiquados. Por isso ele ainda não tinha conseguido se acostumar com sua nova sala.
A empresa em que trabalhava se mudou para um novo endereço, um edifício inteligente. Dos elevadores aos móveis, do treinamento de funcionários ao cafezinho servido nos intervalos, tudo foi calculado, redesenhado e modernizado. Não gostou de nada disso, é claro. Mas como sabia que a hierarquia tinha que ser respeitada, não seria ele, Gerente de Serviços Acessórios, que iria questionar as decisões da Matriz Internacional.

   Augusto abriu sua agenda (de papel, é claro), mas antes que tivesse chance de checar seus compromissos, escutou uma voz feminina dizendo-lhe:
– Existem documentos não utilizados em sua mesa de trabalho. Gostaria de guardá-los?
Augusto olhou em volta assustado, e depois de alguns segundos lembrou que não era pegadinha ou assombração. Era sua Mesa Inteligente TechnoSoft. Com o mesmo tom paciente e prestativo, ela repetiu a pergunta.
– Existem documentos não utilizados em sua mesa de trabalho. Gostaria de guardá-los?
Augusto respondeu em voz alta: “Não”.
A pergunta foi repetida no mesmo tom, deixando-o mais irritado.
– Não quero nada, me deixa em paz, sua coisa chata! – Respondeu mais alto, batendo a mão na mesa e acertando um botão sem querer. O tampo da mesa abriu-se e recolheu algumas pastas do Doutor Augusto, que tentou alcançá-las sem sucesso. A mesa fechou, levando-as embora. Ele rodou em torno da mesa, procurando um jeito de recuperar os documentos, sem sucesso. Gritou por sua secretária. Nova secretária.

   Ela entrou rapidamente na sala, tablet em punho, e sorriso solícito. Sua voz se parecia com a da mesa.
РPois ṇo, Doutor Augusto?
РEssa porcaria de mesa trancou minhas pastas e ṇo consigo pegar de volta.
A secretária irritantemente simpática caminhou até a mesa, abriu uma caixinha parecida com estojo, mostrando um teclado.
– O que é isso, dona… dona… – tentando lembrar seu nome e desistindo – Eu não preciso de uma calculadora, mas dos meus documentos.
– Basta o senhor digitar sua senha, Doutor Augusto.
– Senha? Eu nem sabia que tinha uma senha pra minha mesa!
– Claro que sim, senhor. Para sua segurança, todas as mesas TechnoSoft possuem senhas pessoais e intransferíveis.
РBem, eu ṇo sei a minha. Chama o Severino e fala pra ele trazer um p̩ de cabra.
Com um olhar assustado, mas mantendo o sorriso no rosto, a secretária argumentou:
– Não é necessário, senhor. Caso deseje, posso resetar sua senha.
– Tá, demora isso?
Teclando os botões ela afirma que o procedimento é rápido e simples. Mas no meio do ato ela pára. Seu sorriso some do rosto pela primeira vez.
– Senhor, estou vendo que ainda não instalou o módulo de atualização de sua mesa.
– E pra que serve isso, será que foi por isso que ela engoliu os meus papéis?
– Não posso precisar, senhor, mas é bem possível.
– Tá, instala isso aí.

   Enquanto ela digitava mais números, ele deu a volta em sua mesa e ia sentar-se em seu lugar. Foi impedido pelo alerta da secretária:
-Não faça isso, Doutor Augusto!
Ele se levantou rápido, deu uma volta rápida em torno de si, olhando pra cadeira, pra calça, pra trás:
– O que foi?!
– A TechnoSoft não recomenda o uso da Smart Chair – vendo o olhar perdido do chefe, ela corrigiu – da cadeira, enquanto o sistema da mesa é atualizado.
– Ok. -  Resignou-se. Um momento constrangedor se passou enquanto ela tinha acabado de digitar. Os dois se olhavam, depois observaram algumas luzes da mesa, que piscavam mais intensamente.
– Prontinho! – Ela disse.
– Ótimo – disse ele, preparando pra se sentar novamente. Mais uma vez foi impedido por ela.
– O que foi agora?!
– A recomendação da TechnoSoft, que nossa companhia segue à risca para não perder a garantia, é que após a atualização do módulo da mesa, o sistema do seu escritório deve ser reinicializado.
– Como assim?
Enquanto ela o levava pra fora da sala, com o sorriso e voz tranqüila de sempre, explicava que tudo ficaria bem, mas ele não poderia permanecer no andar enquanto a sala era reinicializada, para o próprio conforto e segurança dele.
– Não posso ficar no andar?  Pra onde vou, onde vou trabalhar enquanto isso?
Dando uma rápida olhada no tablet, ela assegura:
– Creio que a salinha do Severino esteja disponível, ele não se encontra lá no momento.
– Severino? – e ambos saem da sala, a porta se fechando atrás deles.

   Pouco depois, a secretária volta. Com a mesma pose, ela se dirige à mesa do doutor Augusto. Senta-se na cadeira confortável, põe os pés na mesa e pega o telefone, falando com um tom diferente pela primeira vez, bem mais humano e sensual:
– Severino? Pode subir, querido. Já dei um jeito no velho dinossauro. Temos a manhã toda pra nós! Vem logo, amor!

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2 Comentários

  1. Afranio B Souza disse:

    Adorei a personagem do Dr. Augusto e a tecnologia. De certa forma todos nos somos um pouco Dr. Augusto. Ve-se que o autor satiriza o passado e também o futuro representado pela tecnologia. Este tema dará um bom filme. PARABENS ao autor.
    Avise-me sobre novas aventuras do D. AUGUSTO

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