Fila do correio. Se você nasceu antes da invenção do e-mail, tem pelo menos uma história para contar envolvendo o uso dos serviços dessa instituição centenária. E mesmo quem nasceu depois, um dia vai acabar precisando entrar numa agência de verdade, afinal, nem tudo pode ser digitalizado e transportado através das fibras óticas.

Você pode precisar ir numa agência para receber aquela encomenda da China que nunca chega e ainda ter que pagar o dobro do valor original em impostos; receber um pacote que não era tão pequeno e nem tão discreto como a Sex Shop disse que seria; ou mesmo para enviar alguma coisa para um amigo ou parente que mora longe, como era o meu caso.

Enquanto eu apoiava meu pacote num balcãozinho melado com aquela cola caseira do correio, observava as pessoas. Só um caixa aberto, operado por um senhor que teimava em não se aposentar. Ele estava sendo monopolizado por uma velhinha que conversava sobre a destinatária da sua carta. Trocavam receitas contra febre, conversavam como os tempos de mil-novecentos-e-poucos eram bem melhores que atualmente e não se importavam com os olhares feios das outras pessoas na fila.

Finalmente, depois de contadas todas as moedinhas de centavos, a fila andou. Menos o rapaz à minha frente. Com fones de ouvido, ele se balançava enquanto os dedos passeavam freneticamente sobre a tela de um smartphone. Chamei e nada. Cutuquei de leve seu ombro e nada. Acho que sua mente tinha sido digitalizada e transportada via fibra ótica para aquele aparelhinho. As pessoas atrás de mim estavam se amontoando e ameaçando pular o meu lugar, então tive que abandonar o corpo do rapaz digitalizado ali e pulei seu lugar. Se ele conseguisse reencarnar antes da minha vez, eu devolveria seu lugar.

Algumas pessoas estavam ali para pagar contas, comprar carnês de capitalização e outras coisas que não tem nada a ver com a função original dos Correios, mas enfim chegara minha vez.

O atendente olhou com desdém para o meu pacote pardo enrolado com fita crepe colorida. Aconselhou que eu usasse uma caixa oficial dos Correios. Disse que era mais segura, própria para encomendas, ao contrário da minha improvisação que faria vergonha ao MacGuyver (um herói de um seriadinho que existia antes do e-mail ser inventado). Concordei. Aí ele ofereceu seguro, rastreamento VIP, selo perfumado e outros tantos extras. Recusei tudo. Mas ele insistiu:

– O senhor deseja Entrega Com emoção ou Sem Emoção?

– Qual a diferença?

– Com emoção a entrega demora, o rastreamento é completamente doido, informando coisas que não tem nada a ver, e você vai ficar sempre em dúvida se foi roubado ou não.

– E o sem emoção?

– Aí você já sabe que vai ser roubado mesmo.

Agradeci e saí dali rapidinho sem postar. Vou juntar um dinheiro pra passagem e vou entregar a encomenda pra minha tia pessoalmente.

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