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Chanda, Selene e o estagiário Abaangui relaxavam no Plano Celestial após um dia estressante de trabalho. Entre um gole de Cumulus Colada e outro, a bela Selene contava a novidade para seus dois colegas.
– É sério. Ouvi dizer que começaram a seleção pra escolher o novo Anjo do Apocalipse.
O monstruoso Chanda não escondeu o ceticismo:
– De novo, isso? Falaram a mesma coisa no ano 2000, e depois em 2012. Esse boato já deu, lindinha!
– Poxa, eu gostaria de ser escolhido, mas não acho que teria muita chance, não. – Lamentou o jovem Abaangui.
– Bem, – respondeu Chanda – se tivessem mesmo recrutando, podem apostar que eu seria escolhido.
Selene riu:
– Não é concurso de feiura, Chanda! Ninguém me venceria nessa disputa.
– Vai sonhando! Delicada como você é, virar anjo do apocalipse? Você ia largar tudo quando visse a primeira manchinha de sangue.
– Ah, é? Tu acha que tá podendo assim? Que tal apostarmos pra valer? Quem causar mais morte e destruição em um único dia vence!
– Fechado! – Disse Chanda, erguendo sua taça.
Abaangui interrompeu o brinde:
– Gente, mas eu não tenho tantos poderes como vocês, isso não é justo.
Chanda pensou e disse:
– Que tal assim: nós três assumimos a forma de ser humano por um dia. Nenhum poder além do que um mero mortal possui. De acordo?
Os três ergueram suas taças, sorridentes.
– À morte! – Disse Chanda.
– Á destruição! – Falou Selene.
– À promoção! – Completou timidamente Abaangui.

Como bons cavalheiros, os rapazes deixaram Selene ser a primeira. No dia seguinte, bem cedo, Selene assumiu sua forma humana, quase tão bonita como sua forma celestial. Ela se dirigiu ao aeroporto de Nova York, pois tinha um plano.
– Não vou reinventar a roda. Os terroristas mostraram como dá causar muita morte e destruição sem poderes sobrenaturais. Eu jogo um avião num arranha-céu americano, mato todo mundo no prédio e na aeronave, e depois ainda vem uma guerra, com muito mais mortes pro meu placar!
Selena escolheu um voo de longa distância, com avião grande e cheio de combustível. Entrou na fila de embarque. Seria fácil dominar a tripulação com suas técnicas marciais milenares.
– Identidade, por favor? – Disse o guarda do aeroporto.
– Como? – Perguntou Selena.
– Sua identificação, senhora.
– Ah, sou Selena, muito prazer. E o senhor, é?
– Sou o Agente Marvin. Posso ver a sua identidade?
Outro guarda se aproximou, mão na arma de choque.
– Marvin, querido. – Ela usou sua voz mais sedutora. – Eu preciso embarcar nesse avião, você me daria uma ajudinha?
Ela estendeu a mão, fazendo um carinho no rosto do Marvin. Ele pegou sua mão delicadamente e a colocou sobre um leitor de digitais. Acenando para seu colega, ele respondeu:
– Claro, senhorita. Por favor, por aqui.
Marvin e o outro policial a levaram até uma sala fechada, sem janelas. Ela ficou ali por bastante tempo, sozinha, e começou a se preocupar com o horário do voo. Finalmente entraram duas guardas enormes e a revistaram bruscamente. Uma delas fazia tantas perguntas que ela não conseguia pensar direito. Diziam que o nome dela e suas impressões digitais não estavam no sistema. Tentaram algemá-la.
Selena revidou e derrubou as duas facilmente, mesmo sendo metade do tamanho delas. A porta se abriu e dezenas de outros guardas entraram. Selena foi atingida por vários dardos elétricos e antes de perder os sentidos percebeu que estava sendo jogada em uma cela do aeroporto, onde passaria o resto do seu dia como humana.

Chanda ria tanto que chorava. Ele sabia que Selena não iria vencê-lo, mas ela não conseguiu causar uma mortezinha sequer!
Se você quer matar humanos, precisa entender melhor sua cultura e estar a par dos acontecimentos recentes. A ideia dela não era ruim, mas era ultrapassada. E modesta: Nenhum mortal tem poder de destruição maior do que o Presidente dos EUA. Estamos falando de arsenal atômico! Exércitos, frotas navais e aéreas esperando uma ordem pra despejar o apocalipse instantâneo. E tudo o que ele precisava era ser a pessoa certa, no lugar certo.
Chanda assumiu a forma do Presidente americano, igualzinho até em sua impressão digital, íris e cabelos grisalhos. Caminhou triunfantemente em direção à Casa Branca, abrindo caminho entre pobres mortais que não sabiam que em pouco tempo deixariam de existir. Chegou no portão principal e ordenou aos guardas:
– Abram caminho, guardas! Seu Mestre chegou.
Os guardas riram, mas não fizeram menção de abrir o portão. Chanda repetiu a ordem.
– Senhor, a piada foi boa, mas agora, por favor, essa é uma área restrita, queira se retirar.
– Não estão me reconhecendo? Sou o Presidente dos EUA! Essa é a Casa Branca. Vocês precisam me obedecer!
– Senhor, eu admito que essa é uma das melhores imitações…
– Menos as orelhas, o senhor exagerou na prótese. – Disse outro guarda.
– … Mas o Presidente já se encontra no Salão Oval neste momento. Eu mesmo abri a portão pra ele entrar nesta manhã.
Chanda não contava com isso. Mas se ele estivesse lá dentro, não conseguiriam diferenciá-lo. Ele se afastou um pouco, procurou um ponto da cerca vulnerável e pulou. Dezenas de alarmes começaram a tocar no mesmo instante. Guardas, soldados, cães corriam em sua direção. Ele precisava entrar no prédio, então ignorou os gritos para deitar no chão. Correu o máximo que podia. Infelizmente, o Presidente não era tão jovem e logo Chanda ficou sem ar. Ele alcançou uma janela e se atirou contra ela. Quicou de volta, provavelmente ela era blindada. Uma saraivada de balas o atingiu antes mesmo que ele caísse no chão. Enquanto seu espírito voltava pro Plano Celestial viu o corpo sendo cercado pelos soldados. Imaginou como sua tentativa frustrada de assumir a presidência daria manchetes bem interessantes nos jornais do dia seguinte.

Abaangui ficou horrorizado com o que aconteceu a Selene e, em especial, a Chanda. Se as duas criaturas celestiais mais experientes do que ele não tiveram chance alguma, não conseguiram matar nem uma formiga, que chance ele teria?
Mas Abaangui não podia passar por vacilão, desistindo sem tentar. Ele iria encarnar na forma humana, mas em vez de tentar causar morte e destruição, iria aproveitar o seu dia na Terra pra se divertir. Seria como umas bem merecidas férias! E quem poderia culpá-lo por não matar ninguém? Selene e Chanda também falharam!
Abaangui passou longe do país escolhido por seus colegas. Foi logo pro litoral brasileiro. Jogou futebol na praia, arriscou dançar um sambinha num boteco e conheceu duas gatas de primeira. No carro delas, rodaram pela cidade e fizeram loucuras. A noite chegou e Abaangui lamentava ter que voltar, mas ainda tinha algumas horas para aproveitar. Encheu a cara com as duas gatas, que não descolavam dele um segundo e pegaram uma estrada, dirigindo sem rumo. Enquanto ele dirigia, as garotas se pegavam no banco de trás. Eles passaram por várias cidades pequenas, mas não pararam em nenhuma. Não precisavam. Ali no carro ele tinha comida, bebida, música e sexo. Parar pra que?
Até que ele ouviu um som forte de buzina. Ele se assustou e tentou frear, mas o carro deslizou no asfalto da estrada. Um ônibus vinha na outra direção, e com os reflexos amortecidos pela bebida, era impossível desviar a tempo. A colisão foi frontal. Além das duas garotas no carro, morreram mais 5 passageiros do ônibus e o motorista de outro carro, pego no engavetamento.
Quando voltou ao Plano Celestial, Selena e Chanda o receberam com beijos e abraços, ele era o campeão. Mas por dentro, Abaangui não se sentiu como o vencedor.

* * *

O conto acima foi escrito em resposta a este “desafio de escrita” do Reddit: “Um grupo de seres celestiais fazem uma aposta. Cada um deles pode assumir forma humana e aparecer em qualquer lugar da Terra por um dia. Quem causar mais morte e destruição vence.”

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