Doutor Augusto em Nova York

Lembram do Doutor Augusto, o chefe antiquado e atrapalhado que precisou de ajuda da secretária Analice para lidar com sua moderna mesa eletrônica? Caso ainda não tenha lido ou se esqueceu, vale dar uma olhada na primeira aparição do Doutor Augusto. Agora ele está viajando com seu amigo, o playboy quarentão Ricardo. Para onde? Para cidade que nunca dorme!

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Doutor Augusto em Nova York

Ricardo dirigia o carro alugado pela noite de Nova York. Ao seu lado, o Doutor Augusto lutava contra um mapa grande cheio de dobras.

– Acho que você entrou na rua errada, Ricardo.
– Não tamos indo pro Hotel, Augusto. E fecha essa porcaria de mapa, você tá me atrapalhando!
– Não confio em GPS.
– Confia em mim, Augusto.
– Piorou!

Ricardo riu, e viu que o amigo começou a guardar o mapa de papel. Após alguns instantes, o Doutor Augusto perguntou:

– Como assim, “não vamos pro hotel”? Você não vai me jogar em mais uma furada, vai?
– Calma, meu amigo. A gente precisa comemorar, né? Estamos juntos em Nova York! Quais as chances disso acontecer?
– Bom, você vem aqui o tempo todo, eu é que só vim porque a empresa me mandou.
– Tá prestigiado, hein, Augusto. Parece que você se deu bem com as mudanças lá da tua empresa.
– Quem me dera fosse prestígio. Eu só vim trazer uma documentação e recolher umas assinaturas. Um “boy” glamurizado, só isso.
– Ah, chega de drama, seu ranzinza. Tu ganhou uma viagem com tudo pago pros States por dois dias e ainda reclama? Mas quero ver você reclamar disso…

Ricardo parou o carro em frente a uma boate de striptease. Do lado de fora, a sorridente recepcionista, mesmo vestida de acordo com o frio que estava fazendo, não conseguia esconder seus atributos. Augusto ia abrir a boca pra soltar seus protestos usuais, mas a beleza da moça calou seus resmungos pela primeira vez na viagem. Por uns instantes, ela até o fez lembrar-se da sua secretária nova, mas isso era impossível. Devia ser o seu subconsciente pregando peças.

A boate era parecida com qualquer outro estabelecimento de strip do mundo. O problema é que o Doutor Augusto nunca tinha entrado em um, seja, nos EUA ou no Brasil. Sentiu-se um peixe fora d’água, não sabia o que fazer ou dizer. Queria dar meia volta, entrar no carro e só parar quando estivesse no conforto e segurança do seu hotel. Mas como ele iria voltar se nem sabia onde estava? Sentiu-se refém das farras do amigo.

Esse sentimento acabou transparecendo em seu rosto. Obviamente, Ricardo não viu ou deu importância, mas uma das dançarinas notou: não era comum ver clientes carrancudos por ali.

– Por que essa cara, querido? Está tudo bem com você? – Ela perguntou usando sua melhor voz sedutora.
Augusto manteve a carranca e respondeu com um inglês macarrônico de cursinho:
– Não. Eu fui seqüestrado.

No mesmo instante, Augusto percebeu que cometeu um erro. Todo o ar de sedução da moça sumiu e ela pareceu assustada. Será que não se pode usar a palavra “seqüestro” em inglês como uma alegoria? Ou será que neste submundo seqüestros são comuns e, aos olhos dela, ele poderia realmente ser uma vítima pedindo socorro?
A moça foi direto até o Ricardo e apontando para Augusto, repetiu a acusação:
– Ele disse que foi seqüestrado.

Vendo que os dois ficaram brancos, Augusto se apressou em corrigir:
– É que eu achei que estávamos voltando pro hotel, mas meu amigo fez essa “surpresa”, me trazendo aqui antes.
– E está tudo bem? – Ela quis se certificar.
– Claro, tudo bem, Ok!

A dançarina se afastou, mas manteve um olhar desconfiado nos dois. Ricardo falou:
– Tá maluco, cara? Quer que o segurança chame a polícia? Quer passar a noite na delegacia explicando que tu só tava com medo de mulher pelada?
– Calma, Ricardo, também não é assim. É que eu não sou muito bom no inglês, a mulher entendeu errado.
– Então, relaxa e senta aí. Bebe uma por minha conta.
– Não é melhor a gente ir embora?
– Aí é que vamos parecer suspeitos. Curte um showzinho pelo menos. Olha aquela gostosa te esperando. Eu vou nessa daqui.

Nada disso era natural para Augusto. Talvez ele fosse realmente um dinossauro como Ricardo dizia. Mas é que ele sabia que as moças estavam interessadas só em dinheiro e ele deveria fingir que não sabia ou ligava pra isso. Era um teatro dos dois lados.

Mesmo incomodado, ele pensou que a coisa poderia ter ficado pior. Pensou que o melhor seria seguir o conselho do amigo e relaxar um pouco. Além disso, Augusto era um homem sério, casado e meio antiquado, mas não era cego. As strippers eram bonitas e provocantes.

Sentou-se em frente ao pequeno palco onde uma das dançarinas rebolava para ele. Ela era boa em seu trabalho. Olhou pros lados e a cena se repetia: vários homens sentados em cadeiras em frente às dançarinas. De tempos em tempos, os clientes davam uma nota de um dólar pras moças, seja jogando no palco ou prendendo nas poucas roupas que elas mantinham.

Ao notar isso, Augusto teve uma idéia: em vez de enrolar meia hora, dando notinhas de US$ 1 à prestação, ele iria tomar uma atitude pra poder assistir o resto da dança quietinho em seu lugar, e prestigiando o trabalho da dançarina ao mesmo tempo: meteu a mão no bolso e jogou logo uma nota de US$ 10.

Rapidinho, ele percebeu que deu outra mancada. A dançarina do Ricardo, ao lado da sua, olhou espantado pra colega e perguntou:
– Isso foi o que eu pensei?
– Sim, amiga, um “dez”.
– O que você fez?
– Não sei, não fiz nada.
– Faz de novo, garota, faz de novo!

Augusto percebeu que as coisas não funcionavam com uma lógica igual a sua. Seu gesto não foi visto como um adiantamento, um crédito, e sim como uma generosidade de algum endinheirado que estava adorando a apresentação erótica. A sua stripper colocou mais empolgação no trabalho e outras dançarinas começaram a cercá-lo.

Quando Ricardo viu, atônito, que até a sua stripper o trocou por Augusto, ficou irritado. Pegou o amigo pelo braço, puxando-o para saída.

– Ô, Augusto, qual é? Tu levou todas as mulheres?! Não vou ficar aqui bebendo cerveja cara enquanto só você se dá bem! Vamos pro hotel, tua esposa pode ligar a qualquer momento.
– Tchau, girls! Sorry… – Despediu-se Augusto.

Quando um Ninguém é Alguém

sozinho na multidão

Você alguma vez teve a sensação de ser invisível para as pessoas? Já sentiu como se a sua existência fosse insignificante para o mundo ao seu redor?

Quem sente depressão conhece bem este sentimento, mas ele não é exclusivo de quem é deprimido crônico. Outras pessoas, especialmente introvertidos e tímidos experimentam essa sensação mais de uma vez. Mas sou capaz de apostar que todo mundo tem uma ideia do que seja isso.

Você faz um comentário ou dá uma sugestão e ninguém escuta, mas o cara que estava do seu lado a repete e é aclamado como um gênio. Você diz algo que já falou várias vezes e as pessoas reagem como se fosse a primeira vez, porque não prestaram atenção das outras vezes. O pessoal que está com você encontra outros conhecidos, começam a conversar e você fica ali perdido, com cara de paisagem. Você tem sede ou quer pagar a conta, mas o garçom parece habitar um plano dimensional diferente do seu.

Pode espanar esse sentimento pra longe porque eu tenho certeza que você não só é perfeitamente visível, como é uma pessoa mais importante do que imagina.

Se você está na fila do restaurante ou do banco e chega sua vez, TODO MUNDO irá notar sua presença e irá gritar, apontar e gesticular avisando-lhe que a atendente está te chamando. Isso após 0,05 SEGUNDOS do instante em que foi chamado. O mesmo intervalo de tempo se aplica aos motoristas buzinando para você quando o seu carro é o primeiro em frente a um sinal vermelho que acabou de abrir. Acho emocionante a dedicação destes estranhos em dar-lhe a boa notícia que finalmente você pode prosseguir com sua vida, pagando sua conta ou andando com seu carro.

Aquele chefe que recusou seu pedido de aumento dando a entender que se você bobear eles te mandam embora e contratam outro rapidinho, é o mesmo que não te deixa sair de férias porque você é essencial e insubstituível.

Sabe aquela namorada ou namorado que não dá a atenção que você deseja? Experimenta sair com outra pessoa… Se sobreviver ao ataque de ciúmes, vai ver como você é importante pra ela.

Claro que se você é pai ou mãe (biológico ou não) de alguém, você é o mundo para esse alguém. Mas não é fácil, rápido ou barato ser pai/mãe. Quer se sentir muito importante rapidinho? Ocupe o único banheiro da casa ou escritório e fique uma meia hora ali dentro. Vão sentir tantas saudades suas que periga chamarem os bombeiros pra derrubarem a porta.

Mas a prova final de como você é importante, é que eu escrevi esse texto para que você leia. As palavras e os pensamentos já estavam na minha cabeça, eu não precisava escrevê-las para mim. Foi tudo pra você!

Apocalipse Madonna VIII

Pra quem não se lembra da última parte, pode reler a parte 7 aqui. Quem quer pegar a história desde o início, pode ir pra parte 1.

Quem está chegando agora, o que está acontecendo é o seguinte: A popstar Madonna é a grande atração da festa de Reveillon em Copacabana, no Rio de Janeiro. O show corria às mil maravilhas até ser interrompido pelo Apocalipse Zumbi!

Será que a Madonna e um pequeno grupo de sobreviventes conseguirão escapar? Confira agora.

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apocalipse zubi madonna

Não tinham tempo de lamentar a perda do companheiro ou iriam acabar como ele. Madonna pensou que talvez o Sushiman estivesse certo: “não podemos nos apegar a nada e nem ninguém se quisermos sair daqui vivos. Depois, em segurança, podemos tentar voltar a ser humanos novamente”.

Apoiados na mesa, o Bailarino, Madonna e o Sushiman nadaram em direção aos barcos que tinham sido atraídos pelo show de fogos do réveillon. Os não-viventes não os seguiram no mar. A maioria deles simplesmente evitava a água e os poucos que tentaram enfrentar o mar, tentando pegar as pessoas que fugiam por ali, eram facilmente derrubados e jogados de volta pelas ondas.

A quantidade de feridos que buscou o refúgio do oceano foi tão grande que mesmo de noite foi possível perceber que o mar se tingiu de vermelho. Madonna não sabia se essas águas tinham tubarão, mas sugeriu que em vez de usarem a mesa como salva-vidas, eles deviam subir nela e usá-la como bote.

O Sushiman aprovou e ainda sugeriu:

– Acho que a gente deve passar direto por esses primeiros barcos e vamos buscar ajuda em outros mais atrás. Os da frente estão ficando abarrotados de refugiados.

E assim fizeram. Quando passavam entre um veleiro e uma das balsas de fogos, uma garota jovem se agarrou a mesa deles. Ela não tentou subir e eles não a enxotaram. Ela parecia bem, mas muito cansada. Por fim, Madonna a ajudou a subir, ignorando os protestos do Sushiman.

Alcançaram um transatlântico. Diversos barcos menores e muitos nadadores se amontoavam ao seu redor, tentando embarcar. Algumas pessoas à bordo jogaram boias, outras tentaram esticar cordas, mas a tripulação os afastou da beirada e avisou que não deixariam ninguém subir a bordo.

Em meio a gritaria, Madonna se identificou, dizendo que os recompensariam se descessem os botes salva-vidas. Ela foi ignorada pela tripulação, mas não pelas pessoas ao seu redor. Elas começaram a gritar que eram o Obama, o Papa e todo mundo importante que conseguiram pensar.

O bailarino apontou para um pequeno barco pesqueiro.

– A gente está perdendo tempo aqui. E quando o navio partir vai ser até perigoso. Vamos pra aquele barco de pesca. O pessoal que vive do mar é muito mais solidário.

De fato, o pesqueiro os recolheu de bom grado, assim como a vários outros sobreviventes. Madonna percebeu que alguns dos feridos recolhidos, após o mar lavar o sangue, apresentavam claramente diversas mordidas feitos pelos não-viventes.

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Continua…
Uhu! Eles já saíram da praia! O que será que os aguarda na “segurança” do mar?

Apocalipse Madonna – Parte VII

Vocês pensaram que essa série de posts tinha sido cancelada sem um final? Nem pensar. Após um “pequeno hiato” continuamos com a história. E não se preocupe, o fim já está todo planejado e não falta muito.

Pra quem não se lembra da última parte, pode reler a parte 6 aqui. Quem quer pegar a história desde o início, pode ir pra parte 1.

Quem está chegando agora, o que está acontecendo é o seguinte: A popstar Madonna é a grande atração da festa de Reveillon em Copacabana, no Rio de Janeiro. O show corria às mil maravilhas até ser interrompido pelo Apocalipse Zumbi!

Será que a Madonna e um pequeno grupo de sobreviventes que se refugiaram em seu camarim – um contêiner na areia da praia – conseguirão escapar? Confira agora.

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A única iluminação vinha do notebook. O ar condicionado também parou de funcionar, deixando o ar quente e sufocante.

– Os geradores de energia se foram. – Disse o Sushiman. – Alguém ainda acha que ficar aqui dentro é melhor do que tentar escapar?

Dessa vez, a opção pela fuga era consenso. No escuro e no calor seria impossível ficar. Além disso, e se o não-vivente se levantasse e atacasse de novo?

Madonna percebeu que de repente todos estavam falando baixo. A tensão aumentou consideravelmente. Desse jeito, logo alguém iria fazer uma besteira que poderia custar a vida de todos. A popstar tentou quebrar o gelo:

– Antes de mais nada, pessoal, vamos nos conhecer direito. Que tal uma apresentação decente? Estamos presos aqui e eu só sei o que vocês fazem pra viver. Nossas vidas dependem um do outro e nem sei o nome de vocês.

O Bailarino começou a falar, mas foi interrompido pelo Sushiman.

– Eu não quero saber o nome de vocês. Não quero saber se tem filhos, sonhos ou dívidas. Infelizmente, Madonna, sobre você é difícil não saber alguma coisa. Mas não quero saber mais nada de ninguém.

– Eu não posso ficar chamando vocês de “ei, você” ou o “Bailarino”, “Sushiman” e “Guitarrista”.

– Claro que pode. Quanto mais a gente souber um do outro, mais difícil vai ser pra gente sobreviver. – Apontou pro Bailarino – Se eu souber que o nome dele é Carlos, trabalha noite e dia para pagar o tratamento da mãe doente e está a um mês de realizar seu sonho de infância, como vou conseguir deixá-lo pra trás quando os monstros vierem?

O Bailarino tentou cortar baixinho:

– Eu não me chamo Car…

O Sushiman continuou:

– Vocês hesitaram para matar o monstro que tava aqui só por saber que ele se chamava Roberto e tinha uma mulher que enchia o saco dele. Imagina se o Carlos ali virar um não-vivo? Vocês vão ter peito de matá-lo ou vão deixá-lo matar vocês?

– Me matar? Eu não faço mal a uma mosca – O Bailarino respondeu no mesmo tom que antes.

– Eu não concordo, Sushiman. – Disse Madonna. – Mas não temos tempo de discutir. Vamos aproveitar que o barulho lá fora diminuiu e vamos sair daqui.

O Bailarino ainda estava contrariado:

– Sushiman é um apelido mais legal que Bailarino. Parece super-herói japonês.

O Guitarrista entrou no espírito da discussão:

– Eu posso ser Guitar Hero?

O Sushiman atirou uma faca que cravou no corpo do Roberto:

-Vocês estão loucos? Discutindo nomes e apelidos enquanto o mundo está acabando? Vamos trocar segredinhos de diário também? Cantar e dançar até os monstros invadirem o camarim?

– OK, Sushiman, agora to contigo. – Concordou Madonna. – Vamos deixar de papo, é hora de ação. O que vocês acham da gente usar fogo pra abrir caminho?

O bar do camarim estava cheio de bebidas, o que foi uma ótima matéria-prima pra coquetéis molotov. Saindo pelo teto, eles arremessaram os coquetéis na areia, formando uma trilha em direção ao mar. Com o fogo de cada lado da trilha, criaram uma pequena passagem evitada por vivos e não-vivos. Sabiam que o fogo logo apagaria, então precisavam correr.

O Bailarino foi na frente, usando uma mesinha como escudo. Madonna foi em seguida, o Sushiman logo atrás e por último o Guitarrista.

O Bailarino foi rápido e logo chegou na água. Atirou a mesinha com as pernas pra cima, improvisando um salva-vidas pra todos. Madonna alcançou o homem, suas botas enchendo-se com a água fria a cada onda que quebrava.

O músico brandia seu instrumento musical transformado em arma. O fogo estava diminuindo e a trilha estreitou. Ele espetou a cabeça de um não-vivente com a faca amarrada em sua guitarra. Infelizmente, isso fez com que ela ficasse presa um segundo e logo caiu no chão. Ele voltou pra recuperá-la, sendo ultrapassado pelo Sushiman.

– Corre, seu doido. Deixa a guitarra aí!

– Nunca, ela foi um presente do Mark Knopler!

Quando o Sushiman alcançou a água, ouviu os gritos do Guitarrista. Não olhou pra trás. A expressão de horror dos seus companheiros disse tudo. Neste momento, o grupo de sobreviventes ficou menor.

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Não percam os próximos acontecimentos. Prometo que não levarei uma ano para publicar o resto.

O que falta para termos uma inteligência artificial realista?

inteligencia artificial realista

Faz tempo que a humanidade tenta criar um computador parecido com o ser humano. O objetivo dos cientistas é chegar a um nível em que não se possa distinguir entre uma inteligência biológica e uma inteligência artificial.

Lembro que foi uma grande conquista quando uma super-máquina venceu o campeão de xadrez. Grande coisa. Desde quando campeões mundiais de xadrez se parecem com seres humanos?

Bem, se considerarmos o padrão de quem construiu esses super computadores, dá pra entender. Aposto que não eram os garotos mais populares da escola. Deviam estar tentando criar um amigo eletrônico. Coitados, acabaram apanhando em seu único esporte e ainda devem ter sofrido bullying do super computador: “In your face, nerd!!”

Outro avanço foi um computador que conversa online com as pessoas sobre assuntos triviais e por um minuto chega a soar humano. Mas logo a “farsa” acaba e ficam evidentes as falhas de um conversa com uma máquina programada.

Na verdade, sabe o que eu acho que falta para computadores e máquinas reais (e até da ficção) se parecerem mais com os seres humanos? Falta incluir a fórmula da CHATICE. Especificamente, eu me refiro àquele fator que impede as pessoas de irem direto ao ponto. Os robôs inventados até hoje tem um objetivo e vão direto pra ele. Ora, isso não é humano! Veja uma mulher indo ao mercado ou ao Shopping Center. Entra pra comprar uma coisinha, vê 500 outras coisas, compra outras 10 e muitas vezes sai sem levar o que foi comprar. Qual robô faria isso?! São todos muito fakes pra isso. Imagina: “Preciso matar Sarah Connor, preciso… hmm, que parafuso bonito nessa vitrine, olha o platinado!”

Outro fator da Chatice que as máquinas ainda não incorporaram é a enrolação para contar uma história, como aquelas pessoas que vivem se interrompendo pra explicar outra coisa, esticando uma história de 2 minutos pra 10 minutos: “Eu estava passando pela Loja do Baú e – sabe qual é essa loja, né? Aquela na esquina da Rua Sei Lá com Não Tenho Ideia. Em frente à Loja Piorou. Tem um toldo azul-petróleo. Porque tem gente que acha que aquilo é verde, mas não é. Lembrou da loja?”.

Imagina se um computador tivesse essa fórmula em sua programação:
– Computador, quem descobriu o Brasil?
– Ah, o Brasil… grande país da América do Sul. Ele foi descoberto por um navegador de Portugal, que depois tomou posse e colonizou o Brasil. Provavelmente é por isso que os brasileiros adoram contar piadas de português. Você sabe onde fica Portugal, né? Um país pequeno do lado da Espanha. Lembrou? Mas lembrou mesmo ou tá concordando só por concordar?

O único robô da ficção que parece incluir falhas de personalidade humana é o Marvin, do Guia do Mochileiro das Galáxias. Ele tem depressão profunda e é um chato de galochas. É o robô mais realista que já vi. O C3PO também é chatinho. Os outros, sejam andróides bonzinhos como Data de Star Trek ou vilões como o Exterminador do Futuro jamais se passariam por humanos por muito tempo.

Eu ouvi dizer que algumas experiências que misturaram material orgânico com chips artificiais chegaram muito próximas de simular uma pessoa real. Mas infelizmente exageraram no fator Chatice e tiveram que encerrar tudo. As pobres cobaias inseridas na comunidade humana foram largadas à própria sorte. A maioria pelo menos está conseguindo levar uma vida feliz e produtiva como operadora de telemarketing e teleatendimento.

Aposta Celestial

ceu

Chanda, Selene e o estagiário Abaangui relaxavam no Plano Celestial após um dia estressante de trabalho. Entre um gole de Cumulus Colada e outro, a bela Selene contava a novidade para seus dois colegas.
– É sério. Ouvi dizer que começaram a seleção pra escolher o novo Anjo do Apocalipse.
O monstruoso Chanda não escondeu o ceticismo:
– De novo, isso? Falaram a mesma coisa no ano 2000, e depois em 2012. Esse boato já deu, lindinha!
– Poxa, eu gostaria de ser escolhido, mas não acho que teria muita chance, não. – Lamentou o jovem Abaangui.
– Bem, – respondeu Chanda – se tivessem mesmo recrutando, podem apostar que eu seria escolhido.
Selene riu:
– Não é concurso de feiura, Chanda! Ninguém me venceria nessa disputa.
– Vai sonhando! Delicada como você é, virar anjo do apocalipse? Você ia largar tudo quando visse a primeira manchinha de sangue.
– Ah, é? Tu acha que tá podendo assim? Que tal apostarmos pra valer? Quem causar mais morte e destruição em um único dia vence!
– Fechado! – Disse Chanda, erguendo sua taça.
Abaangui interrompeu o brinde:
– Gente, mas eu não tenho tantos poderes como vocês, isso não é justo.
Chanda pensou e disse:
– Que tal assim: nós três assumimos a forma de ser humano por um dia. Nenhum poder além do que um mero mortal possui. De acordo?
Os três ergueram suas taças, sorridentes.
– À morte! – Disse Chanda.
– Á destruição! – Falou Selene.
– À promoção! – Completou timidamente Abaangui.

Como bons cavalheiros, os rapazes deixaram Selene ser a primeira. No dia seguinte, bem cedo, Selene assumiu sua forma humana, quase tão bonita como sua forma celestial. Ela se dirigiu ao aeroporto de Nova York, pois tinha um plano.
– Não vou reinventar a roda. Os terroristas mostraram como dá causar muita morte e destruição sem poderes sobrenaturais. Eu jogo um avião num arranha-céu americano, mato todo mundo no prédio e na aeronave, e depois ainda vem uma guerra, com muito mais mortes pro meu placar!
Selena escolheu um voo de longa distância, com avião grande e cheio de combustível. Entrou na fila de embarque. Seria fácil dominar a tripulação com suas técnicas marciais milenares.
– Identidade, por favor? – Disse o guarda do aeroporto.
– Como? – Perguntou Selena.
– Sua identificação, senhora.
– Ah, sou Selena, muito prazer. E o senhor, é?
– Sou o Agente Marvin. Posso ver a sua identidade?
Outro guarda se aproximou, mão na arma de choque.
– Marvin, querido. – Ela usou sua voz mais sedutora. – Eu preciso embarcar nesse avião, você me daria uma ajudinha?
Ela estendeu a mão, fazendo um carinho no rosto do Marvin. Ele pegou sua mão delicadamente e a colocou sobre um leitor de digitais. Acenando para seu colega, ele respondeu:
– Claro, senhorita. Por favor, por aqui.
Marvin e o outro policial a levaram até uma sala fechada, sem janelas. Ela ficou ali por bastante tempo, sozinha, e começou a se preocupar com o horário do voo. Finalmente entraram duas guardas enormes e a revistaram bruscamente. Uma delas fazia tantas perguntas que ela não conseguia pensar direito. Diziam que o nome dela e suas impressões digitais não estavam no sistema. Tentaram algemá-la.
Selena revidou e derrubou as duas facilmente, mesmo sendo metade do tamanho delas. A porta se abriu e dezenas de outros guardas entraram. Selena foi atingida por vários dardos elétricos e antes de perder os sentidos percebeu que estava sendo jogada em uma cela do aeroporto, onde passaria o resto do seu dia como humana.

Chanda ria tanto que chorava. Ele sabia que Selena não iria vencê-lo, mas ela não conseguiu causar uma mortezinha sequer!
Se você quer matar humanos, precisa entender melhor sua cultura e estar a par dos acontecimentos recentes. A ideia dela não era ruim, mas era ultrapassada. E modesta: Nenhum mortal tem poder de destruição maior do que o Presidente dos EUA. Estamos falando de arsenal atômico! Exércitos, frotas navais e aéreas esperando uma ordem pra despejar o apocalipse instantâneo. E tudo o que ele precisava era ser a pessoa certa, no lugar certo.
Chanda assumiu a forma do Presidente americano, igualzinho até em sua impressão digital, íris e cabelos grisalhos. Caminhou triunfantemente em direção à Casa Branca, abrindo caminho entre pobres mortais que não sabiam que em pouco tempo deixariam de existir. Chegou no portão principal e ordenou aos guardas:
– Abram caminho, guardas! Seu Mestre chegou.
Os guardas riram, mas não fizeram menção de abrir o portão. Chanda repetiu a ordem.
– Senhor, a piada foi boa, mas agora, por favor, essa é uma área restrita, queira se retirar.
– Não estão me reconhecendo? Sou o Presidente dos EUA! Essa é a Casa Branca. Vocês precisam me obedecer!
– Senhor, eu admito que essa é uma das melhores imitações…
– Menos as orelhas, o senhor exagerou na prótese. – Disse outro guarda.
– … Mas o Presidente já se encontra no Salão Oval neste momento. Eu mesmo abri a portão pra ele entrar nesta manhã.
Chanda não contava com isso. Mas se ele estivesse lá dentro, não conseguiriam diferenciá-lo. Ele se afastou um pouco, procurou um ponto da cerca vulnerável e pulou. Dezenas de alarmes começaram a tocar no mesmo instante. Guardas, soldados, cães corriam em sua direção. Ele precisava entrar no prédio, então ignorou os gritos para deitar no chão. Correu o máximo que podia. Infelizmente, o Presidente não era tão jovem e logo Chanda ficou sem ar. Ele alcançou uma janela e se atirou contra ela. Quicou de volta, provavelmente ela era blindada. Uma saraivada de balas o atingiu antes mesmo que ele caísse no chão. Enquanto seu espírito voltava pro Plano Celestial viu o corpo sendo cercado pelos soldados. Imaginou como sua tentativa frustrada de assumir a presidência daria manchetes bem interessantes nos jornais do dia seguinte.

Abaangui ficou horrorizado com o que aconteceu a Selene e, em especial, a Chanda. Se as duas criaturas celestiais mais experientes do que ele não tiveram chance alguma, não conseguiram matar nem uma formiga, que chance ele teria?
Mas Abaangui não podia passar por vacilão, desistindo sem tentar. Ele iria encarnar na forma humana, mas em vez de tentar causar morte e destruição, iria aproveitar o seu dia na Terra pra se divertir. Seria como umas bem merecidas férias! E quem poderia culpá-lo por não matar ninguém? Selene e Chanda também falharam!
Abaangui passou longe do país escolhido por seus colegas. Foi logo pro litoral brasileiro. Jogou futebol na praia, arriscou dançar um sambinha num boteco e conheceu duas gatas de primeira. No carro delas, rodaram pela cidade e fizeram loucuras. A noite chegou e Abaangui lamentava ter que voltar, mas ainda tinha algumas horas para aproveitar. Encheu a cara com as duas gatas, que não descolavam dele um segundo e pegaram uma estrada, dirigindo sem rumo. Enquanto ele dirigia, as garotas se pegavam no banco de trás. Eles passaram por várias cidades pequenas, mas não pararam em nenhuma. Não precisavam. Ali no carro ele tinha comida, bebida, música e sexo. Parar pra que?
Até que ele ouviu um som forte de buzina. Ele se assustou e tentou frear, mas o carro deslizou no asfalto da estrada. Um ônibus vinha na outra direção, e com os reflexos amortecidos pela bebida, era impossível desviar a tempo. A colisão foi frontal. Além das duas garotas no carro, morreram mais 5 passageiros do ônibus e o motorista de outro carro, pego no engavetamento.
Quando voltou ao Plano Celestial, Selena e Chanda o receberam com beijos e abraços, ele era o campeão. Mas por dentro, Abaangui não se sentiu como o vencedor.

* * *

O conto acima foi escrito em resposta a este “desafio de escrita” do Reddit: “Um grupo de seres celestiais fazem uma aposta. Cada um deles pode assumir forma humana e aparecer em qualquer lugar da Terra por um dia. Quem causar mais morte e destruição vence.”

Correio!

Fila do correio. Se você nasceu antes da invenção do e-mail, tem pelo menos uma história para contar envolvendo o uso dos serviços dessa instituição centenária. E mesmo quem nasceu depois, um dia vai acabar precisando entrar numa agência de verdade, afinal, nem tudo pode ser digitalizado e transportado através das fibras óticas.

Você pode precisar ir numa agência para receber aquela encomenda da China que nunca chega e ainda ter que pagar o dobro do valor original em impostos; receber um pacote que não era tão pequeno e nem tão discreto como a Sex Shop disse que seria; ou mesmo para enviar alguma coisa para um amigo ou parente que mora longe, como era o meu caso.

Enquanto eu apoiava meu pacote num balcãozinho melado com aquela cola caseira do correio, observava as pessoas. Só um caixa aberto, operado por um senhor que teimava em não se aposentar. Ele estava sendo monopolizado por uma velhinha que conversava sobre a destinatária da sua carta. Trocavam receitas contra febre, conversavam como os tempos de mil-novecentos-e-poucos eram bem melhores que atualmente e não se importavam com os olhares feios das outras pessoas na fila.

Finalmente, depois de contadas todas as moedinhas de centavos, a fila andou. Menos o rapaz à minha frente. Com fones de ouvido, ele se balançava enquanto os dedos passeavam freneticamente sobre a tela de um smartphone. Chamei e nada. Cutuquei de leve seu ombro e nada. Acho que sua mente tinha sido digitalizada e transportada via fibra ótica para aquele aparelhinho. As pessoas atrás de mim estavam se amontoando e ameaçando pular o meu lugar, então tive que abandonar o corpo do rapaz digitalizado ali e pulei seu lugar. Se ele conseguisse reencarnar antes da minha vez, eu devolveria seu lugar.

Algumas pessoas estavam ali para pagar contas, comprar carnês de capitalização e outras coisas que não tem nada a ver com a função original dos Correios, mas enfim chegara minha vez.

O atendente olhou com desdém para o meu pacote pardo enrolado com fita crepe colorida. Aconselhou que eu usasse uma caixa oficial dos Correios. Disse que era mais segura, própria para encomendas, ao contrário da minha improvisação que faria vergonha ao MacGuyver (um herói de um seriadinho que existia antes do e-mail ser inventado). Concordei. Aí ele ofereceu seguro, rastreamento VIP, selo perfumado e outros tantos extras. Recusei tudo. Mas ele insistiu:

– O senhor deseja Entrega Com emoção ou Sem Emoção?

– Qual a diferença?

– Com emoção a entrega demora, o rastreamento é completamente doido, informando coisas que não tem nada a ver, e você vai ficar sempre em dúvida se foi roubado ou não.

– E o sem emoção?

– Aí você já sabe que vai ser roubado mesmo.

Agradeci e saí dali rapidinho sem postar. Vou juntar um dinheiro pra passagem e vou entregar a encomenda pra minha tia pessoalmente.

Doutor Augusto

chefe dinossauro

   Doutor Augusto entrou em seu novo escritório. Com seus 55 anos, ele não se considerava um dinossauro, mas admitia que era um homem tradicional, de hábitos e gostos que muitos podem chamar de antiquados. Por isso ele ainda não tinha conseguido se acostumar com sua nova sala.
A empresa em que trabalhava se mudou para um novo endereço, um edifício inteligente. Dos elevadores aos móveis, do treinamento de funcionários ao cafezinho servido nos intervalos, tudo foi calculado, redesenhado e modernizado. Não gostou de nada disso, é claro. Mas como sabia que a hierarquia tinha que ser respeitada, não seria ele, Gerente de Serviços Acessórios, que iria questionar as decisões da Matriz Internacional.

   Augusto abriu sua agenda (de papel, é claro), mas antes que tivesse chance de checar seus compromissos, escutou uma voz feminina dizendo-lhe:
– Existem documentos não utilizados em sua mesa de trabalho. Gostaria de guardá-los?
Augusto olhou em volta assustado, e depois de alguns segundos lembrou que não era pegadinha ou assombração. Era sua Mesa Inteligente TechnoSoft. Com o mesmo tom paciente e prestativo, ela repetiu a pergunta.
– Existem documentos não utilizados em sua mesa de trabalho. Gostaria de guardá-los?
Augusto respondeu em voz alta: “Não”.
A pergunta foi repetida no mesmo tom, deixando-o mais irritado.
– Não quero nada, me deixa em paz, sua coisa chata! – Respondeu mais alto, batendo a mão na mesa e acertando um botão sem querer. O tampo da mesa abriu-se e recolheu algumas pastas do Doutor Augusto, que tentou alcançá-las sem sucesso. A mesa fechou, levando-as embora. Ele rodou em torno da mesa, procurando um jeito de recuperar os documentos, sem sucesso. Gritou por sua secretária. Nova secretária.

   Ela entrou rapidamente na sala, tablet em punho, e sorriso solícito. Sua voz se parecia com a da mesa.
– Pois não, Doutor Augusto?
– Essa porcaria de mesa trancou minhas pastas e não consigo pegar de volta.
A secretária irritantemente simpática caminhou até a mesa, abriu uma caixinha parecida com estojo, mostrando um teclado.
– O que é isso, dona… dona… – tentando lembrar seu nome e desistindo – Eu não preciso de uma calculadora, mas dos meus documentos.
– Basta o senhor digitar sua senha, Doutor Augusto.
– Senha? Eu nem sabia que tinha uma senha pra minha mesa!
– Claro que sim, senhor. Para sua segurança, todas as mesas TechnoSoft possuem senhas pessoais e intransferíveis.
– Bem, eu não sei a minha. Chama o Severino e fala pra ele trazer um pé de cabra.
Com um olhar assustado, mas mantendo o sorriso no rosto, a secretária argumentou:
– Não é necessário, senhor. Caso deseje, posso resetar sua senha.
– Tá, demora isso?
Teclando os botões ela afirma que o procedimento é rápido e simples. Mas no meio do ato ela pára. Seu sorriso some do rosto pela primeira vez.
– Senhor, estou vendo que ainda não instalou o módulo de atualização de sua mesa.
– E pra que serve isso, será que foi por isso que ela engoliu os meus papéis?
– Não posso precisar, senhor, mas é bem possível.
– Tá, instala isso aí.

   Enquanto ela digitava mais números, ele deu a volta em sua mesa e ia sentar-se em seu lugar. Foi impedido pelo alerta da secretária:
-Não faça isso, Doutor Augusto!
Ele se levantou rápido, deu uma volta rápida em torno de si, olhando pra cadeira, pra calça, pra trás:
– O que foi?!
– A TechnoSoft não recomenda o uso da Smart Chair – vendo o olhar perdido do chefe, ela corrigiu – da cadeira, enquanto o sistema da mesa é atualizado.
– Ok. –  Resignou-se. Um momento constrangedor se passou enquanto ela tinha acabado de digitar. Os dois se olhavam, depois observaram algumas luzes da mesa, que piscavam mais intensamente.
– Prontinho! – Ela disse.
– Ótimo – disse ele, preparando pra se sentar novamente. Mais uma vez foi impedido por ela.
– O que foi agora?!
– A recomendação da TechnoSoft, que nossa companhia segue à risca para não perder a garantia, é que após a atualização do módulo da mesa, o sistema do seu escritório deve ser reinicializado.
– Como assim?
Enquanto ela o levava pra fora da sala, com o sorriso e voz tranqüila de sempre, explicava que tudo ficaria bem, mas ele não poderia permanecer no andar enquanto a sala era reinicializada, para o próprio conforto e segurança dele.
– Não posso ficar no andar?  Pra onde vou, onde vou trabalhar enquanto isso?
Dando uma rápida olhada no tablet, ela assegura:
– Creio que a salinha do Severino esteja disponível, ele não se encontra lá no momento.
– Severino? – e ambos saem da sala, a porta se fechando atrás deles.

   Pouco depois, a secretária volta. Com a mesma pose, ela se dirige à mesa do doutor Augusto. Senta-se na cadeira confortável, põe os pés na mesa e pega o telefone, falando com um tom diferente pela primeira vez, bem mais humano e sensual:
– Severino? Pode subir, querido. Já dei um jeito no velho dinossauro. Temos a manhã toda pra nós! Vem logo, amor!

Exercite Sua Criatividade

 Existem várias formas de desenvolver e exercitar uma mente criativa. Uma delas, que faço uso frequente aqui no blog e falarei dela em outro post, é baseado em estudos de imagem. Outra é um método que tem raízes naqueles programas de improviso e até mesmo no repente nordestino.

 Três Palavras

Peça para uma pessoa dizer 3 palavras. Vale substantivo, verbo, adjetivo, nome próprio, etc. Mas precisam ser três palavras. Nada de explicações ou detalhes. Não precisam ter ligação entre elas e o melhor é que não tenham mesmo. Eu não consideraria palavras válidas “que”, “o”, “nas” e outras que não tenham um sentido isolado em si. Se vai valer palavrão ou não, é com você. Pessoalmente, eu dispenso, mas não sou eu quem vou te censurar.

 Avise porque você quer as três palavras: elas irão entrar em uma história que você vai inventar na hora. E ela deve fazer sentido. Não precisa ser uma obra de Machado de Assis, mas deve ter pé e cabeça (mesmo que seja uma história nonsense). Ou seja, a palavra não pode aparecer de forma forçada, fora de contexto.

 Claro que você não vai fazer a melhor historia da sua vida dessa forma. Mas com certeza desafia o seu raciocínio e capacidade de criação. Algumas histórias criadas assim vão ficar tão interessantes que você até pode desenvolvê-las mais tarde, expandindo-as em uma história mais longa.

 Em dupla ou grupo

 Outra coisa interessante é repassar as mesmas palavras que você recebeu pra outra pessoa e comparar as histórias. Pode-se ainda fazer como se fosse um jogo de adedanha, mas em vez de puxar pela memória e pela cultura, puxa-se pela criatividade. Um diz as palavras e vocês têm 1 minuto pra escrever a história.

 Sozinho

Defina a regra antes de começar: você pode pegar a quinta palavra das páginas 6, 9 e 15 de uma revista ou livro. Ou então pode abrir aleatoriamente um dicionário e selecionar a décima palavra em três páginas distintas. Outra ideia é escrever 21 palavras em papelzinhos e sorteá-las.

 Exemplos de Desafios

 Chulé – Camarão – Astronauta
ASSASSINARAM O CAMARÃO – Os camarões não aguentavam mais o cheiro de CHULÉ que a maré alta trazia. A situação era insuportável e até perigosa. Então mandaram seu melhor CAMARÃO em uma perigosa missão fora do mar. Camarys Nascimento foi o escolhido como primeiro ASTRONAUTA a explorar a região sem água. Infelizmente, a sua nave explodiu no lançamento. Sabotagem, claro.
Obs: Repare que “camarões” não serve para completar o desafio, foi necessário que a palavra aparecesse no singular, como foi proposta.

Trovão – Giz – Batom
Quase não se enxergava nada naquela escuridão. A tensão pairava no ar. Uma gota de suor escorria pelas têmporas. Um TROVÃO iluminou brevemente seu rosto, mas foi rápido demais para que ela tirasse a dúvida: afinal, ela passara GIZ ou BATOM em seus lábios? Título: O Drama da Professora
Obs: como eu disse, a história não precisa ser um conto digno de prêmio, basta que as coisas se encaixem, unindo palavras aparentemente desconexas em uma história coesa.

 Kombi – Algodão Doce – Coelho
Arnaldo COELHO não suportava mais a KOMBI que vendia Algodão Doce em sua rua. Todo dia, às 7 da manhã, a Kombi passava em sua rua anunciando no alto falante: ALGODÃÃÃÃO… É DOOOOCEEEE. Decidiu vestir-se e ir lá tirar satisfações. Nunca mais viram o Arnaldo. E a Kombi vendendo algodão doce nunca mais apareceu. Em compensação, todo dia de manhã passa outra kombi anunciando COEEEEELHO, É O COEEEELHO!
Obs: A pessoa que propôs o desafio pensou em “coelho” animal, mas isso não pode ser especificado e o desafiado resolveu que seria um sobrenome. Não há penalidade e até é divertido ver que uma pessoa pensou uma coisa e no final saiu outra.

 Diga, Três, Palavras
Era uma vez um sujeito que queria testar a sua rapidez de pensamento e sua criatividade. Ele pediu a TRÊS amigos: “cada um DIGA uma palavra que formarei uma historia com elas”. O que eles não sabiam, é que essas seriam as últimas PALAVRAS de cada um.
Obs: Nenhum desafio deve ser recusado!

 Chegou a hora do seu desafio!

Esses exemplos foram desafios que me fizeram. Se quiser mandar suas três palavras pra mim, fique à vontade. Se quiser você mesmo ser desafiado, além das palavras dos exemplos acima e das instruções pro jogo solo, aqui vão suas três palavras:

ESCULTOR – DIARIAMENTE – RELAÇÃO.

Escolhi aleatoriamente, mas até que ficou fácil, né?

Carlos

do-not-cross

Assim que Carlos saiu, percebeu que algo estava errado. Sentiu isso no ar. Olhou em volta e viu que não foi o único a notar. Trabalhadores largaram suas rotinas e se entreolharam nervosamente.

De repente, foi como se uma sirene silenciosa tivesse tocado. Alguém encontrou o primeiro corpo sem vida e todos começaram a correr.

Alguns voltaram pra dentro, em busca da proteção dos seguranças. Outros, mais céticos, acreditavam que o perigo era maior do que qualquer coisa já vista. Quem disse que o governo poderia ajudar ou iria desejar fazê-lo? Entre ficar encurralado por tempo indeterminado ou a chance de escapar dali com vida, muitos escolheram a segunda opção. Inclusive Carlos.

Ele correu como um louco. Viu alguns conhecidos tombando do seu lado. O cheiro da morte impregnando o ar. Ele seguiu reto, depois mudou de direção várias vezes, tentando despistar o perigo.

Carlos só parou de correr quando não viu mais nenhum vestígio do ataque. Ou dos seus amigos. Ou da sua casa. Onde ele estava? Movido pelo medo, ele se afastou tanto que não fazia idéia de onde estava.

Ele começou a questionar sua decisão. Ele odiava a solidão. Não, ele tinha fobia. De que adiantaria sobreviver se todos que ele conhece se foram?

Talvez, mais por medo desse pensamento do que por otimismo, ele se recusou a acreditar nessa hipótese. Pensou que sempre existem sobreviventes, por pior que seja a tragédia. Ele os ajudaria e juntos reconstruiriam o que foi perdido.

Carlos resolveu agir, pondo-se em movimento mais uma vez. Seguiu em direção a um terreno mais alto. A razão dizia-lhe que do alto ele conseguiria se situar melhor.

Chegando ao topo, olhou em volta. O vento forte parecia um trovão. Mas ele não se abateu. Identificou alguns pontos que talvez ajudassem a encontrar o caminho de volta.

Foi quando o céu escureceu. Seu sexto sentido disparou novamente. Preparou-se para correr, mas era tarde demais. A última coisa que Carlos ouviu foi um trovão que parecia dizer:

“Menino! Pára de ficar matando formiga e vem comer!!”