Lembram do Doutor Augusto, o chefe antiquado e atrapalhado que precisou de ajuda da secretária Analice para lidar com sua moderna mesa eletrônica? Caso ainda não tenha lido ou se esqueceu, vale dar uma olhada na primeira aparição do Doutor Augusto. Agora ele está viajando com seu amigo, o playboy quarentão Ricardo. Para onde? Para cidade que nunca dorme!

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Doutor Augusto em Nova York

Ricardo dirigia o carro alugado pela noite de Nova York. Ao seu lado, o Doutor Augusto lutava contra um mapa grande cheio de dobras.

– Acho que você entrou na rua errada, Ricardo.
– Não tamos indo pro Hotel, Augusto. E fecha essa porcaria de mapa, você tá me atrapalhando!
– Não confio em GPS.
– Confia em mim, Augusto.
– Piorou!

Ricardo riu, e viu que o amigo começou a guardar o mapa de papel. Após alguns instantes, o Doutor Augusto perguntou:

– Como assim, “não vamos pro hotel”? Você não vai me jogar em mais uma furada, vai?
– Calma, meu amigo. A gente precisa comemorar, né? Estamos juntos em Nova York! Quais as chances disso acontecer?
– Bom, você vem aqui o tempo todo, eu é que só vim porque a empresa me mandou.
– Tá prestigiado, hein, Augusto. Parece que você se deu bem com as mudanças lá da tua empresa.
– Quem me dera fosse prestígio. Eu só vim trazer uma documentação e recolher umas assinaturas. Um “boy” glamurizado, só isso.
– Ah, chega de drama, seu ranzinza. Tu ganhou uma viagem com tudo pago pros States por dois dias e ainda reclama? Mas quero ver você reclamar disso…

Ricardo parou o carro em frente a uma boate de striptease. Do lado de fora, a sorridente recepcionista, mesmo vestida de acordo com o frio que estava fazendo, não conseguia esconder seus atributos. Augusto ia abrir a boca pra soltar seus protestos usuais, mas a beleza da moça calou seus resmungos pela primeira vez na viagem. Por uns instantes, ela até o fez lembrar-se da sua secretária nova, mas isso era impossível. Devia ser o seu subconsciente pregando peças.

A boate era parecida com qualquer outro estabelecimento de strip do mundo. O problema é que o Doutor Augusto nunca tinha entrado em um, seja, nos EUA ou no Brasil. Sentiu-se um peixe fora d’água, não sabia o que fazer ou dizer. Queria dar meia volta, entrar no carro e só parar quando estivesse no conforto e segurança do seu hotel. Mas como ele iria voltar se nem sabia onde estava? Sentiu-se refém das farras do amigo.

Esse sentimento acabou transparecendo em seu rosto. Obviamente, Ricardo não viu ou deu importância, mas uma das dançarinas notou: não era comum ver clientes carrancudos por ali.

– Por que essa cara, querido? Está tudo bem com você? – Ela perguntou usando sua melhor voz sedutora.
Augusto manteve a carranca e respondeu com um inglês macarrônico de cursinho:
– Não. Eu fui seqüestrado.

No mesmo instante, Augusto percebeu que cometeu um erro. Todo o ar de sedução da moça sumiu e ela pareceu assustada. Será que não se pode usar a palavra “seqüestro” em inglês como uma alegoria? Ou será que neste submundo seqüestros são comuns e, aos olhos dela, ele poderia realmente ser uma vítima pedindo socorro?
A moça foi direto até o Ricardo e apontando para Augusto, repetiu a acusação:
– Ele disse que foi seqüestrado.

Vendo que os dois ficaram brancos, Augusto se apressou em corrigir:
– É que eu achei que estávamos voltando pro hotel, mas meu amigo fez essa “surpresa”, me trazendo aqui antes.
– E está tudo bem? – Ela quis se certificar.
– Claro, tudo bem, Ok!

A dançarina se afastou, mas manteve um olhar desconfiado nos dois. Ricardo falou:
– Tá maluco, cara? Quer que o segurança chame a polícia? Quer passar a noite na delegacia explicando que tu só tava com medo de mulher pelada?
– Calma, Ricardo, também não é assim. É que eu não sou muito bom no inglês, a mulher entendeu errado.
– Então, relaxa e senta aí. Bebe uma por minha conta.
– Não é melhor a gente ir embora?
– Aí é que vamos parecer suspeitos. Curte um showzinho pelo menos. Olha aquela gostosa te esperando. Eu vou nessa daqui.

Nada disso era natural para Augusto. Talvez ele fosse realmente um dinossauro como Ricardo dizia. Mas é que ele sabia que as moças estavam interessadas só em dinheiro e ele deveria fingir que não sabia ou ligava pra isso. Era um teatro dos dois lados.

Mesmo incomodado, ele pensou que a coisa poderia ter ficado pior. Pensou que o melhor seria seguir o conselho do amigo e relaxar um pouco. Além disso, Augusto era um homem sério, casado e meio antiquado, mas não era cego. As strippers eram bonitas e provocantes.

Sentou-se em frente ao pequeno palco onde uma das dançarinas rebolava para ele. Ela era boa em seu trabalho. Olhou pros lados e a cena se repetia: vários homens sentados em cadeiras em frente às dançarinas. De tempos em tempos, os clientes davam uma nota de um dólar pras moças, seja jogando no palco ou prendendo nas poucas roupas que elas mantinham.

Ao notar isso, Augusto teve uma idéia: em vez de enrolar meia hora, dando notinhas de US$ 1 à prestação, ele iria tomar uma atitude pra poder assistir o resto da dança quietinho em seu lugar, e prestigiando o trabalho da dançarina ao mesmo tempo: meteu a mão no bolso e jogou logo uma nota de US$ 10.

Rapidinho, ele percebeu que deu outra mancada. A dançarina do Ricardo, ao lado da sua, olhou espantado pra colega e perguntou:
– Isso foi o que eu pensei?
– Sim, amiga, um “dez”.
– O que você fez?
– Não sei, não fiz nada.
– Faz de novo, garota, faz de novo!

Augusto percebeu que as coisas não funcionavam com uma lógica igual a sua. Seu gesto não foi visto como um adiantamento, um crédito, e sim como uma generosidade de algum endinheirado que estava adorando a apresentação erótica. A sua stripper colocou mais empolgação no trabalho e outras dançarinas começaram a cercá-lo.

Quando Ricardo viu, atônito, que até a sua stripper o trocou por Augusto, ficou irritado. Pegou o amigo pelo braço, puxando-o para saída.

– Ô, Augusto, qual é? Tu levou todas as mulheres?! Não vou ficar aqui bebendo cerveja cara enquanto só você se dá bem! Vamos pro hotel, tua esposa pode ligar a qualquer momento.
– Tchau, girls! Sorry… – Despediu-se Augusto.

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