Bom, esse post não é nada original nosso aqui do BNE. É uma crônica da Marta Medeiros, lá em Março de 1999. Crônica esta, que foi publicada no livro Trem Bala, que tenho aqui em casa (roubado da minhã irmã). Graças as tecnologias que existem hoje, eu consegui digitalizar a crônica, e com um programa de OCR, pude colocar o texto aqui pra vocês. Espero que gostem. Pois auxiliando o post do Antônio, aqui nessa crônica, ela defende um pouco uma parte dos homens nesse dia que não deveria ser específico de um gênero da nossa éspecie.

Segue o texto:

Dia internacional da porção Mulher

Amanhã é Dia Internacional da Mulher. Eu poderia falar sobre a resistência feminina, simbolizada por aquela senhora que foi contemplada com 90 facadas, dois tiros e três atropelamentos, a mando do marido, e sobreviveu. Poderia falar sobre o inaceitável desrespeito as mulheres do Afeganistão, que são obrigadas a ficar confinadas em casa e são linchadas quando expõem acidentalmente uma parte do corpo. Poderia falar sobre a astúcia de Hillary Clinton, que está capitalizando sua passividade conjugal para angariar votos para uma cadeíra no Senado. Talvez eu volte a esses assuntos, mas hoje, véspera do nosso dia, quero falar de outra coisa: a porção mulher que há em todo homem.
Dedico esta crônica àqueles que, ao contrário dos fundamentalistas islâmicos, apoiam a carreira de suas esposas e não se sentem inseguros diante de uma mulher com opinião e renda próprias.
Aos homens que saem mais cedo do trabalho para buscar seus filhos na escola, que continuam atenciosos depois do orgasmo, que não têm medo de entrar na cozinha, que são vaidosos, que se permitem uma dúvida, uma insegurança, um vacilo.
Aos homens que acompanham suas mulheres na sala de parto e às consultas realizadas no pré-natal. Aos homens que não têm pudor em falar sobre coisas íntimas com aqueles em quem confiam. E aos homens que escutam.
Seu pai talvez tenha conseguido escapar do machismo reinante; seu avô, é pouco provável. Não por falta de caráter, não porque não quisesse, mas por não conhecer outro modelo. Homem que era homem não concedia à mulher um espaço público: ela era assunto privado, e entre quatros paredes deveria limitar-se.
Homem que era homem não chorava, olhava-se no espelho só na hora de fazer a barba e era sempre o portador da última palavra. Homem que era homem não dividia a conta nem a responsabilidade, e aí dele se usasse camisa cor-de-rosa. Parece que foi ontem, e foi.
Uma reportagem recente da revista Veja revelou os resultados de uma pesquisa, em que se constatou que, ao contratar ou promover um funcionário homem, o patrão dá prioridade para aquele que tiver certas características femininas, como saber trabalhar em equipe, planejar a longo prazo, preocupar-se com detalhes e seguir a intuição. Não tremei, galera. É apenas o nivelamento natural da espécie: nós desenvolvemos a agressividade reprimida, vocês a sensibilidade escondida. Nenhum dano para as diferenças que nos unem, que seguem gigantescas e necessárias.
Sabemos como é difícil abandonar uma fórmula consagrada, e é por isso que precisamos cada vez mais uns dos outros, o que descarta a hipótese de ser provocação o convite para comemorarmos juntos o dia de amanhã.
Marta Medeiros – Março de 1999

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